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Oprah

Posted on 27 dezembro, 2016

Fui hipnotizada pela Oprah Winfrey quando a conheci em Nova York, nos anos 80. Ela ainda não existia para nós, brasileiros. Foi paixão à primeira vista. Uma mulher que se comportava com a segurança e a autoridade que eu sempre quis ter. Gorda e negra, falava livremente sobre ser gorda e negra, discutia a eficiência ou não das dietas em que se metia, mostrava produtos para o cabelo afro, maquiagem e esmalte para a pele negra. Falava sobre racismo e levava ao programa negros bem sucedidos em todas as áreas, vencedores, historias de inspiração para o seu publico. Falava sobre violência contra a mulher, abuso sexual, pedofilia, não havia assunto proibido para ela naquele palco. Era uma apresentadora feminina, inteligente, bem humorada, respeitada, assertiva nas suas críticas. Nosso encontro foi tão impactante que eu não trabalhava nem marcava nada no horário do programa. Não me convenciam outros talk shows feitos nos mesmos moldes, Phil Donahue ou Geraldo Rivera, cópias sem a autenticidade dela. Ficava horas diante da TV mergulhada naquelas pautas tão mundanas quanto fantásticas, a mãe que bateu a criança junto com a roupa na maquina de lavar, a mulher que se casou com a mãe do assassino do seu filho.
Uma amiga ficou preocupada com a minha obsessão: você vai acabar virando personagem bizarro do programa, “A mulher que só se relacionava com a TV e se recusava a conviver com pessoas do mundo real.”Uma versão latina de Peter Sellers, o jardineiro, em Being There. Mas era exatamente o contrário! Com Oprah, eu saía do apartamento em Manhattan e tinha contato com a gente comum das cidades do interior americano, com a vida como ela é. Meu coração disparado de excitação. Ficava, então, pendurada nesse varal imaginário, uma ponta no jornalismo, outra na ficção. Partes de mim recortadas, balançando ao vento, sem nunca serem recolhidas. Na época, a literatura não era uma opção, eu era muito crítica, tinha medo do que sairia de mim e queria ser outra pessoa. A Oprah, talvez.

Gravidez

Posted on 15 dezembro, 2016

O amigo liga aflito. Preciso da sua experiência: gravidez emburrece? Penso que é brincadeira e entro. Claro! Ainda há pouco, dei com uma mulher em adiantado estado de burrice no supermercado. Uns sete ou oito meses. Queria que o funcionario explicasse por que banana nanica é a grande. Não riu. Meu casamento acabou, disse, não reconheço minha mulher. Transformou-se numa criatura primitiva, não raciocina como a pessoa evoluída que foi, não alcança nada além do que é instintivo. Sabe como é? Não sei. Tudo agora é preto ou branco, não tem meio tom, não consegue interpretar nem bula de remédio. Quando tento esclarecer, ela lança um olhar vazio de quem já não está mais ali. Faltam-me argumentos para tranquilizá-lo. Dizer que somos animais durante a gravidez é reduzir o processo mais humano que uma mulher experimenta na vida. Assistir o corpo transformando-se irreversivelmente, esticando, pesando, arredondando para abrigar outra pessoa é perturbador. Carregar o barrigão sabendo que ali dentro se desenvolve uma criatura que amanhã estará vestida, comprando pão, clareando os dentes, lendo um livro, é muito estranho. A consciência impartilhável da gestação com tudo o que ela significa é enlouquecedora. Ser livre nesse momento é estar só. Tento mostrar naturalidade. Nós todas vamos para um lugar onde não cabe mais ninguém e voltamos depois acompanhadas. Não se preocupe. Ela já está comendo terra?