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Ora, pelos

Posted on 21 outubro, 2016

Empolgada com o clima dos últimos encontros, pediu à depiladora que fizesse um coração. Pequeno, simples, o mais barato do catálogo. A mulher foi, mexeu, puxou, errou na curva, consertou, exagerou e terminou desenhando uma caveira peluda, escavados olhos, nariz e boca na vertical. O fim onde deveria estar o começo de tudo. Experiente na coisa, já teve o escudo do Flamengo e um rabo de sereia delineados com cera quente quando outras ocasiões pediram, não se deixou abater com a barbeiragem da profissional. Assumiu a caveira cabeluda entre as pernas em atitude hard core, lingerie de couro preto, dominadora, agressiva, acatando o que o destino birrento mais uma vez aprontava para ela. Enxugou as lágrimas. Acertou com a pinça os pelinhos desalinhados. Romance é para os fracos.

Perdido

Posted on 17 outubro, 2016

Em que momento a gente se perde da gente mesmo? Quando é que a gente, menino, deixa de observar a formiga carregando a folha e começa a olhar para os olhos de quem nos vê? Quando nasce o outro?
O outro que me autoriza, que me dá a medida, que me descreve para mim mesmo. O outro que é autor da minha historia. O outro que toma emprestada a minha alma. O outro que fala por mim, que é dono da minha voz. O outro que me aponta os defeitos com o dedo duro da delação. O outro que me define. O outro que me reflete no espelho alheio em que eu me miro. O outro que elejo para me representar na vida. O outro tão necessario para eu me sentir importante. O que me fez perder a formiga, a folha e a mim mesmo.

Uma mãe

Posted on 12 outubro, 2016

As três meninas pequenas comigo no quarto. Sinto um aperto no peito, daqueles que vêm do medo do mundo, e irrompo emocionada: “Queria que tudo parasse agora. Que vocês não crescessem. Que eu não envelhecesse. Que a gente ficasse exatamente assim, num espaço perfeito, para sempre, aqui, na segurança do quarto.” 
Uma delas vai devagarinho, abre porta e todo mundo sai correndo.

Solidariedade

Posted on 9 outubro, 2016

 

– Precisamos apresentar alguém para o Antonio.
– Quem é ele mesmo?
– O irmão mais velho do Henrique. Cinquenta e cinco anos, bonitão, lembra o Tom Jobim quando jovem, arquiteto, divertido, boa companhia, cozinha bem, não trabalha há anos, aliás, nunca trabalhou, vive na aba dos amigos. Ele anda deprimido, estou preocupado.
– Mas, vagabundo assim ninguém vai querer!
– O defeito dele é ser homem. Se fosse mulher, arrumava um marido amanhã.
– Não é verdade, ninguém mais quer uma mulher que não trabalha.
– Os homens da minha idade não se importam, desde que ela tenha as qualidades do Antonio.
– E essa depressão?
– Ele vai ao psiquiatra quando aparece uma grana. Se arrumar uma mulher legal que o sustente, nem vai precisar de remedio.
– Tá, vou pensar.

O homem medroso

Posted on 20 setembro, 2016

O homem mais medroso do mundo está sentado na cozinha tomando café e lendo o jornal. Faz comentários agressivos sobre os descaminhos da política no país. Tem a solução para os que não concordam com ele, no revólver, no cacetete, na bomba. Passa os olhos pelo caderno de cultura, faz uma piada sobre o músico gay e ri sozinho. Manda a empregada cortar um mamão decidindo começar a dieta ali. A mão na barriga estendida e o tanquinho do músico gay no jornal. Manda a mulher levar o carro na oficina porque o imbecil do vizinho de garagem deu um toco de porta e vai ter que pagar, ah, vai mesmo! À noite, o homem mais medroso do mundo toma uma dose de uísque e um comprimido para poder dormir. Há muitos inimigos dentro dele e todos têm a cara dele. Enfrentá-los é ferir-se de morte. Amanhã, ele se levanta e aí, sim, dá um jeito nesse bando de idiotas.

Casando as diferenças

Posted on 12 setembro, 2016

Ele chora desde o Patinho Feio, que assistiu pela primeira vez aos seis anos, e desde então nunca mais parou de chorar. Vale ópera, bilhete de filho, apresentação de amigo em teatro amador. Sou durona. Nas brigas com meus irmãos, o que os enfurecia era a minha estóica capacidade de não verter uma lágrima até o final do embate. O reservatório quase transbordando e fechado.
Guerra é um tema para ele. Filme, livro, fotografia, reportagem. Toma partido, acompanha, torce. Emociona-se com a entrega de um soldado leal à causa. Sou pacifista, mais do que isso, mineira. Prefiro sempre um acordo, mesmo que sem vergonha. Diferente dele e de muitas mulheres, fujo de uniforme. Nem marinheiro italiano de licença na Sardenha me fala às partes.
É gastador, perdulário, generoso com ele mesmo e com os outros, não faz conta. Tem mais sapatos do que Imelda Marcos nos bons tempos. Tem, inclusive, um par de couro verde. Verde. E vários tênis iguais, brancos, com pequenas diferenças que só ele reconhece. Sem culpa. Na minha religião, o céu é dos pobres. Na dele, os ricos são bem recebidos. Fui criada nos rigores de uma mãe mineira que compra a salsinha num lugar e a cebolinha noutro porque “compensa.” Ainda assim, tenho meus luxos. Ela que não me leia, mas se o dinheiro for pouco, levo flores e deixo as verduras na feira.
Ele vive viajando para a China. Mete-se em automóveis cheios de chineses em ruas superlotadas de chineses. Toma cerveja quente para ser gentil. Aprendeu a desviar o pé das cusparadas no chão e a desconsiderar o som da comida chupada do hashi sem cerimônia à mesa. Não se queixa. Quando acorda, estou indo dormir. Vai para a cama quando já levantei. Acha que essa vida invertida é até romantica e que saudade é coisa boa. Odeio sentir saudade. Odeio fazer mala. Odeio ficar muito tempo longe de casa.
Ele cozinha bem, come bem. Reconhece um prato pelo cheiro dos ingredientes numa invejável relação de intimidade. Vê beleza em esculturas cozidas, verdade no cru, respeito no ponto para mal. Lê cardápios com a calma e o prazer de um Dostoiévski, discutindo passagens, procurando sentido nas entrelinhas e achando graça nos exageros dramáticos do redator. Não mede esforços. Pode passar o dia vigiando uma carne arder no forno. É capaz de atravessar o mundo com um jamon de nove quilos na mala. Quando pergunto do almoço com alguém, ele descreve o que comeram. Eu só querendo saber o que conversaram. Sou desprovida desse sentido, o paladar na comida. Na boca, não distingo mandioquinha de xuxu. Abraço sem medo sal e açucar, dois inimigos da sociedade contemporânea. Não tenho orgulho disso. Antes, estou aprendendo a ficar quietinha na mesa, sem brincar com os talheres (ou com o celular) observando atenta o interminável ritual da degustação.
Sei que há um longo caminho até que as nossas almas se misturem irreversivelmente, até que possamos confundir os nossos medos e vontades e que ainda assim saiamos inteiros do outro lado. Depois de muito tempo juntos, quando um tem sede, o outro bebe água, dizia minha avó. Não vejo a hora!

 

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Moldura

Posted on 18 agosto, 2016

O artista fez o desenho dela. Apaixonou-se primeiro pelo desenho, depois pelo artista. Quando a paixão apagou-se, tentou apagar o desenho e já não pode porque estava protegido dentro da moldura. Devia ter emoldurado a paixão, pensou.O artista fez o desenho dela. Apaixonou-se primeiro pelo desenho, depois pelo artista. Quando a paixão apagou-se, tentou apagar o desenho e já não pode porque estava protegido dentro da moldura. Devia ter emoldurado a paixão, pensou.

Natureza

Posted on 15 agosto, 2016

O beija-flor veio na minha direção, fechado em mim, olho no olho, querendo me beijar. Batia intensamente as asinhas naquela velocidade acelerada que os mantêm flutuando sem sair do lugar e sem perder altura. O bico longo furando o ar. Achei que não era comigo, procurei a flor, mas era eu mesmo. Veio cheio de onda, o corpinho de poucos gramas refletindo em azuis e verdes metálicos a luz do sol, ainda carregando o mel da fêmea anterior e querendo mais. Polinizando. Senti um frio na barriga. A certeza na escolha dele encheu-me de compromisso e responsabilidade. Respondi instintiva, o corpo inteiro agora fincado no chão, todo o meu néctar, perfumada flor, feminina. Esperei o encontro sem saber como se daria e já querendo. E então, o inesperado, sempre tão distante da natureza harmoniosa das coisas. Havia um vidro entre nós. Limpíssimo, transparente, atravessando o destino. Eu também não percebi, ocupada com a minha vaidade, só via a ele e ele a mim, perdemos o radar. Bateu o bico, a cabeça, as asas, estatelou-se contra o nada. Ouvi o som duro do impacto e assisti sua queda desequilibrada na grama. Corri e peguei o corpinho quente com cuidado, meu coração disparado de dor, coloquei na mesa do jardim. Que má sorte a minha e de quem quer que me deseje! Morto o beija-flor! Morta a nossa vontade! Morto o momento! Fui, aos gritos, pedir socorro. Quando voltamos, agora com as diferenças contabilizadas, o beija-flor, sapo que não beijei, seguia inerte sobre o mármore. Dobramos- nos sobre ele, auscultávamos o que já não batia. Durou um, dois minutos aquela morte e bateram-lhe novamente asas, coração, o rabo. Milagroso ou espontâneo, veio a ordem e ele ressuscitou do pequeniníssimo desmaio. Saiu voando, desorientado e ressentido, eu sei, do que era tão certo e não aconteceu.

O outro

Posted on 10 agosto, 2016

Eu morava em Nova York quando soube da morte do Rubem Braga, no Rio. Fiquei imensamente triste. Com medo. Era uma sensação estranha de que todo mundo que eu gostava morreria enquanto eu estava fora. Morte à traição. A gente se distrai, olha para o outro lado e pronto, acontece. Estou de volta e vira e mexe essa mesma angústia me assalta. A morte é sempre traição.