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A mala

Posted on 26 janeiro, 2017

Vamos até a Samsonite ver se encontramos alguma coisa, respondeu quando reclamei de uma dor nas costas que não me deixou dormir. Não queria ofender o amigo e fiz que era coisa antiga quando tinha certeza de que a culpa era do colchão de molas da casa dele, onde me hospedei, em Montevideo. É um homem de poucas posses, um artista sem sucesso comercial ou compromissos sociais, vive na boa companhia da bicicleta e do gato.
Sigo-o em passinhos apressados pela rua sem perguntar onde fica a farmácia e só quando já estamos no meio da feira é que entendo do que se trata. Num vão aberto entre uma barraca de ervas e outra de milho, o cavalete de ferro apoiava uma enorme mala aberta cheia de remédios até a altura do zíper. Era a Samsonite. Acho que foram os clientes que deram o nome, disse ele. Ao lado, guardando a mercadoria, a senhora magrinha e deselegante de óculos, tênis, legging e pochete na cintura, era consultada sobre preços e a indicação dos remédios. Distribuía opiniões sobre dores e doenças com a segurança de uma médica e, diante da minha óbvia incredulidade, meu amigo reafirmou varias vezes que ela era, de fato, doutora. Ele e tantos outros, há anos frequentam a Samsonite para adquirir remédios, inclusive tarja vermelha ou tarja preta, sem receita ou prescrição. Sempre encontram o que estão buscando ou similares e se não sabem o que precisam, fazem a consulta ali mesmo, descrevendo sintomas e mostrando o corpo entre as ervas e o milho, o cheiro de peixe vindo lá da esquina. Dizem que a doutora traz o medicamento de hospitais ontem tem convênio, um canal de compra e venda de remédios desviados lá de dentro. E não há fiscalização? Os fiscais também ficam doentes, diz meu amigo, sacando uns tantos pesos para pagar o anti-inflamatório que comprou para mim. Você tem que estar bem para enfrentar a viagem de avião. Concordo.

Existe amor em São Paulo

Posted on 16 janeiro, 2017


Marchava sozinha pela avenida Paulista voltando do cinema e deu com o hare krishna de crocs e coque e aquela balela toda. Não se sabe se foi o tema do filme ou o que lhe enfraqueceu o espírito e então, como nunca ocorrera antes, resolveu fazer uma contribuição à categoria. Meteu a mão na bolsa tentando pescar a carteira naquele mar de objetos não identificados e não a encontrou. Desesperada, virou o conteúdo todo na calçada, ali mesmo, diante dos olhos incrédulos do hare krishna de crocs e coque apenas para comprovar que a havia perdido. Com a sensibilidade e o senso prático que a religião das ruas exige, ele sacou do seu embornal uma nota de vinte reais, mais do que suficiente para o ônibus, e deu a ela. A moral da história estaria escrita aí não fosse o fato dela voltar ao cinema, encontrar a carteira com o dinheiro dentro, marchar até o hare shishna de crocs e coque e devolver-lhe a grana emprestada com bons juros, ela jura.

Sexta feira, 13, e a gata Preta

Posted on 16 janeiro, 2017


Em depressão de final de ano, talvez porque mais uma vez a dieta não funcionou e ela ainda é a obesa da casa, a gata Preta tentou o suicídio engulindo uma agulha de costura com linha, nózinho na ponta e tudo. Não deixou bilhete, não nos demos conta. Espumava e guinchava como uma louca, enfiada em cavernas inacessíveis como a sapateira ou as caixas da dispensa. Não conseguíamos agarra-la. Veio a equipe de resgate veterinária com uniforme de acidente nuclear e debaixo dos gritos da gata e lágrimas das meninas, diagnosticou-se uma infecção na garganta. O veterinário aplicou uma injeção e receitou medicamentos que ela tomou a semana toda e continuou sem comer, sem beber ( agora, sim, perdendo algum peso) espumando, babando, chorando.
A Milene, que trabalha em casa, já não podia mais com aquele sofrimento e, numa manobra genial, enfiou a mão na garganta da gata retirando a agulha já enferrujada que, sabe Deus como, manteve-se esse tempo todo imóvel lá dentro. Linha e nózinho na ponta e tudo.
Com a naturalidade com que faz tortas maravilhosas, passa roupa com requinte, mantem a casa limpa e organizada, ela trouxe a gata de volta à vida: “Não gosto de criação, mas não posso ver o bicho maltratado”.

Um casal

Posted on 16 janeiro, 2017

A praia de Punta cheia de turistas estrangeiros. Com biquini de oncinha apertado no corpaço e forte sotaque gaúcho, a brasileira chamava a atenção não por uma coisa nem pela outra, mas pela performance exibida com o marido. 
Sentado numa cadeira, de sunga, ele conversava animadamente com outro homem enquanto ela fazia um aquecimento nas mãos, esfregando uma na outra, abrindo e fechando os dedos. Sacou, então, o protetor solar da bolsa e começou o serviço pelas costas dele, distribuindo o creme em ensaiados movimentos circulares que desciam pelas laterais até a cintura. Em seguida, posicionou-se de frente e partiu para o peito, a bunda de oncinha apontada para a cara do amigo, e seguiu trabalhando com as duas mãos tentando inserir o creme entre os pelos em profusão. Nesse momento, para júbilo da turma, ela abaixou-se, e, de joelhos, principiou a massagear o barrigão dele, circundando com delicadeza o umbigo profundo. Vez ou outra, o homem desviava a cabeça para que ela não atrapalhasse seu campo de visão e a conversa, o amigo também, talvez acostumado à pratica do casal, movia o corpo sincronicamente para o lado oposto ao dela. Sem levantar-se, ela reabasteceu as mãos de creme e o esparramou nas pernas cabeludas, anunciando em voz alta que já estava quase terminando e cobriu tudo ali, inclusive os pés, dos efeitos maléficos do sol. Levantou-se desequilibrada na areia, secou o suor, ajeitou o cabelo e, com as pontas dos dedos, tratou de manipular o rosto dele, o que visivelmente o irritou porque ela lhe tirou os óculos e demorou um pouco para recolocá-los. Depois, guardou o creme, deitou-se na canga e abriu uma revista. 
Eu quis ir até lá para dizer que estava envergonhada de ser brasileira ao lado de uma mulher como ela, que faz tudo o que fez e esquece completamente de passar protetor na careca do seu homem. Mas me deu preguiça.

O celular na terceira idade

Posted on 10 janeiro, 2017


O anfiteatro lotado de senhores de cabeça branca para um evento cultural. Num procedimento que agora me parece corriqueiro, a dificuldade para encontrarem os lugares, acomodarem-se neles, recuperarem a respiração, cumprimentarem os vizinhos e então, ecoando no salão, o pipocar dos celulares, o toque inconfundível do modelo mais simples, básico, o pequeno, com teclas e sem aplicativos. 
Durante todo o tempo, a apresentação é entrecortada pelo som, altíssimo por razões óbvias, de algum aparelho. O proprietário não está constrangido, ao contrário, celular é assunto sério, pode ser um filho, um neto, um parente com alguma emergencia. Ele leva algum tempo para se dar conta de que é o seu que está tocando, localizá-lo num bolso, numa bolsa, e lentamente iniciar o procedimento de atendê-lo. Coloca os óculos, checa a ligação e então, avisa que está no teatro e aperta com alguma força a tecla de desligar. A senhora ao meu lado, pérolas, cabelo e unhas feitas, bengala em punho e, aqui perdeu-se a elegancia, as pernas um tanto afastadas demais pelo tamanho das coxas, recebe diversas ligações e comenta cada uma delas com as duas amigas que a acompanham. Mostra o celular, a luz acesa no salão escuro, as outras devolvem os comentários. Tenho o instinto de protege-la quando observo cabeças mais jovens voltando-se com ar de repreensão. Ela não se abala. Ao contrário, ser procurada é ser necessária, querida, importante. A partir da segunda chamada, já não mergulha a mão tremula na bolsa, mas guarda o telefone dentro do vestido, no sutiã. As amigas concordam. Na saída, ficam de pé, ela fragil apoiada na bengala, conversando longamente sobre o espetáculo, a fila esperando que, pelo amor de Deus, se encaminhem para a porta. Não tenho pressa, quero o tempo delas, e o meu celular tocando perto do coração.

Milagre

Posted on 1 janeiro, 2017

Duas mulheres estão pescando. As varas erguidas contra o céu azul. Pernas descobertas escorrendo entre as pedras no pontal. A da esquerda usa um chapéu de abas curtas, a trança lhe escapa pela nuca. A outra, cabelos brancos bem cortados, enfrenta o sol com galhardia e óculos escuros. A cesta ao lado esperando os peixes. Estão rindo de alguma coisa que pode ser o fato de não pescarem nada há horas. Ou de um bolo que embatumou pouco antes de sairem de casa. O olhar para o horizonte parece buscar o fio da conversa. Lembram-se de alguma coisa antiga? Um desencontro, uma viagem, a letra de uma musica? Um nariz é pequeno de perfil. Os olhos se apertam na risada. Um brinco colorido chacoalha ao vento e brilha. Desnivelados, os ombros não se tocam. Estão tão juntas que dão fé que serão para sempre. Vão pescar um único peixe, preso nos seus anzóis, uma só boca, uma só cauda a se debater na cesta. Vão limpá-lo. Ombro com ombro na pia da cozinha. Deus ali. A travessa prateando. Vão devolvê-lo ao sal e assá-lo. Vão comer a carne branca e macia comungando a aventura cotidiana do fundo do mar até a mesa. Sem procurar significado ou relevância no acontecimento formidável que se dá ali. O milagre.