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Eu fui infeliz e não sabia

Posted on 26 fevereiro, 2017


Responsável pela cobertura do Oscar naquele ano, dos poucos que SBT conseguiu surrupiar da Globo, bandeei-me de Nova York para Los Angeles com aquela euforia que só os ingênuos destemidos podem ter. A emissora não tinha estrutura técnica nem vontade de gastar dinheiro para fazer a transmissão como se deve e me deixou sem retorno de áudio, solta, falando sozinha, sem orientação ou roteiro. Como uma correspondente de guerra iniciante, fui onde o óbvio mandava. E as minas explodiam sob os meus pés. Marilia Gabriela, no estúdio em São Paulo, sentindo-se exposta por tabela, puxou minha orelha ao vivo diversas vezes. Mas eu só soube disso depois pelos amigos que, desde então, se tornaram solidariamente inimigos dela. Hollywood estava como o Rio (e agora São Paulo) no Carnaval, tomada pelo evento. Caminhei por ruas ajardinadas onde vivem os artistas de sucesso, vi as mãos deles todos na Calçada da Fama, comprei um vestidinho lindo verde água e fui ao cabeleireiro na Rodeo Drive. Estava preparada. O sol ardia quando fomos, o cinegrafista e eu, para o tapete vermelho esperar pelas celebridades junto com centenas de jornalistas do mundo todo. A imprensa internacional confinada atrás da corda. O que se passa ali, as limusines despejando diretores, atores e atrizes, a maior parte em estado químico alterado, a gritaria, a luta para conseguir que eles se aproximem da sua câmera, é selvagem. Eu gritava os nomes e dizia “Brazilian TV” em seguida, o que não produzia nenhum interesse neles. Ainda assim, consegui laçar um ou outro, graças ao apelo exótico que o Brasil tinha na época, futebol, bunda e Bossa Nova. Sharon Stone mandou um beijo para Buenos Aires no meu microfone. Richard Dreyfuss respondeu irônico à pergunta sobre o garotinho que o acompanhava: Não é meu filho, é uma criança que encontrei na rua e trouxe comigo. O que incomodou e ofendeu Marilia Gabriela e outros. Os amigos preocupados. Fui acusada de não defender as nossas cores à altura. Na era pré internet, a gente só sabia da vida no dia seguinte, quando ela virava notícia. Dormi com a sensação de dever cumprido para acordar devendo satisfações públicas. Matinas Suzuki, então diretor da Folha de São Paulo, gentilmente cedeu-me um naco da Ilustrada onde descrevi a saga de uma jornalista abandonada pela emissora num circo transmitido ao vivo. Ao lado de jornalistas de entretenimento e fofoca do mundo artístico, tão famosos quanto as estrelas, eu me diverti com o eficiente frenesi artificial americano, os artistas produzidíssimos atuando fora da tela, a grande feira da industria hollywoodiana. Esqueceram de avisar a turma que o Oscar não é o Nobel.

Camões

Posted on 20 fevereiro, 2017

Raduan Nassar, que em edição recente a revista New Yorker chamou de “o maior escritor brasileiro”, recebeu hoje de manhã, o Prêmio Camões, de literatura. Clarice Lispector e Saramago foram premiados anteriormente. Eu teria ido de qualquer forma só para conhecer de perto o autor de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, que escreveu duas obras primas, enjoou, e foi tratar de assuntos rurais na fazenda no interior de São Paulo para nunca mais pegar num lápis. Penso em tanta bobagem sendo produzida por aí, a minha incluída, e no tempo perdido de quem escreve e, sobretudo, de quem desavisadamente se põe a ler. Raduan chegou manso, andar apertadinho, fala baixa, sorrindo constrangido com o alvoroço. Agradeceu o prêmio e pediu desculpas ao embaixador português por falar só do Brasil e de um assunto que talvez só interesse ao brasileiros. E desandou a lamentar a situação do país nas mãos de um governo de exceção, com gente como Alexandre de Moraes e outros, um governo repressor, responsável por escolas ocupadas, contra as universidades federais, contra os trabalhadores, contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Para não cansar a turma, embora o evento fosse no aprazível jardim do Museu Lasar Segall, Raduan terminou logo e foi sentar-se ao lado do embaixador português, sua roupa muito casual contrastando com o elegante terno escuro do diplomata. E então, lamentavelmente, o ministro Roberto Freire, com licença oficial, mas nem sempre reconhecida para falar, decidiu responder ao escritor homenageado. Disse que entende a ignorância dos jovens, que não conheceram o golpe de 64, mas que os mais velhos deveriam saber que o que vivemos hoje é uma democracia plena. E veio a vaia. E o Fora Temer. O elegante jardim transformou-se num palanque com troca de ofensas e xingamentos entre Roberto Freire e os presentes sobre impeachment e legitimidade e desonestidade e vaias e palmas e as afinadas crianças do coral saíram de fininho, os garçons recolheram a louça, o Raduan Nassar esquecido, sentadinho ao lado do português, o improviso nas mãos, torcendo praquilo acabar logo e ele voltar a pensar nas vacas da sua fazenda, aliás, doada recentemente à Universidade de São Carlos. Já Camões, que gostava de uma briga, teria apreciado.

Os pés do mendigo

Posted on 20 fevereiro, 2017

A Manu, com seu peculiar sentido de observação, chegou impressionada: Mãe, o morador de rua tinhas os pés perfeitos! Estava imundo, estendido na calçada, cheirando mal por causa do calor, o cabelo duro, vestindo trapos. Mas os pés descalços eram limpíssimos! Bem clarinhos, sem calos, sem unhas estragadas, sem rachaduras. Pés de alguém que nunca caminhou sem sapato na vida. E ele sabia disso. Ficava mexendo os dedos e olhando orgulhoso, exibindo seus pés perfeitos. Logo para mim, que vivo cheia de bolhas e calos e machucados!

Seu Waldir

Posted on 7 fevereiro, 2017

Vou chegando com aquela vergonha fingida que Guaxupé me deu, roupa de ginástica, tênis novinho para a primeira aula de pilates. Quinze minutos atrasada. Espio pela porta de vidro a mulherada estendida no chão, tapetinhos e objetos de apoio, em movimentos coordenadíssimos e lentos. Esticam-se e encolhem-se, sobretudo, esticam-se muito além do apanhar uma manga na ponta do galho. Não dou para a coisa. Entro em pânico e resolvo fugir, mas sou pega na virada de corpo pelo senhor da limpeza que vem vindo. Um homem alto, uniformizado, óculos fundo de garrafa, vassoura e pá de cabo longo. Aperta os olhos pequenos na minha direção, abre a porta e me põe para dentro aos gritos, a sala inteira ouvindo: A senhora não pagou? Então, tem que fazer os negócios aí! Respondo baixinho, as alunas já perdendo a sintonia, acompanhando a nossa conversa pelo espelho: Acho que hoje não. Começo outro dia. Só vim ver como é. Ele varrendo. E se reproduziu toda só para olhar? Perdeu a coragem? Aquela lá na frente tem mais que o dobro da sua idade e se enrola inteirinha feito tatu! Preciso explicar: Eu não dou conta, moço. A professora interrompe: Seu Waldir, deixa ela à vontade. E ele inconformado: Nem começou já quer sair fora, resmunga, juntando o cisco no chão.