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de Danuza

Posted on 15 março, 2017

A amiga trabalhou com Danuza Leão no JB e tinha boas lembranças daquele tempo tão carioca, no sentido efervescente, da cidade. O sotaque do Rio ecoava no país inteiro. Da amizade entre as duas, ficou uma saia indiana longa, de puro algodão bordado e tingido em cores quentes, lindíssima e chiquérrima, adjetivos que a gente só usa para falar de Danuza, presente que a musa tirou do corpo e deu a ela. Diante do meu entusiasmo, a amiga, então, repetindo o gesto, passou a saia para mim. Saí eufórica com a peça nas mãos, sem saber se vestia ou se pendurava na parede, se a erguia num mastro feito uma bandeira. Foi temporariamente para o cabide. De quando em quando, eu a estendia nos braços e sofria com as possibilidades. Não tenho altura nem personalidade para envergar uma roupa de Danuza Leão, mas aquele tesouro não podia ficar enterrado no armário. A saia tinha história. O que não aconteceu de verdade, tratei de imaginar. Danuza de sandália baixa, mil pulseiras coloridas, longos brincos de princesa, lânguida, arrastando a saia indiana falsamente despojada pelas calçadas do Rio a caminho do boteco mais charmoso de Ipanema, onde todo mundo mundo sabia quem era ela, todo mundo queria ser ela, queria estar com ela. Eu não seria uma versão encolhida, mineira e anônima de Danuza Leão. Então, tomei coragem e enfrentei o sacrilégio que toda mulher em algum momento experimenta. Com uma tesoura, fui pecando pelas bordas, saboreando o desconstruir do sagrado, abrindo as costuras cheia de prazer e excitação até a saia virar um tecido disforme, pronta para assumir qualquer função nessa vida, uma toalha, uma blusa, uma bolsa. Precisei da cumplicidade da minha habilidosa irmã, Luciana, para a segunda etapa da operação. Na fazenda, em Guaxupé, indiferente à India e ao Rio, ela costurou almofadas étnicas, que agora enfeitam o sofá e, caipira que sou, cada vez que alguém vem visitar, fico controlando a situação até não aguentar mais e pedir, por favor, dá para desencostar da saia de Danuza Leão?

Sierva Maria

Posted on 8 março, 2017

Pequenininha, de um tamanho que a permitia atravessar de pé, de um lado para o outro, a mesa da cozinha, e muito pretinha, ela acreditava que, de alguma forma, pertencia à família da Meire, que trabalhava conosco. E pertencia. A Meire era linda, negra, olhos puxados, alta, corpo perfeito, e tinha quatro filhos cada um mais bonito que o outro. Era vaidosa, estava sempre colorida e enfeitada. Além disso, tinha um amor declarado por dançar e, podendo, dormir até tarde, uma coisa decorrendo da outra, duas atividades que a Laura sempre respeitou. Grudada nela, a Laura cresceu ouvindo a radio Nativa, pedindo para passear nas Super Casas Bahia, louca para esfregar o chão com os pés rebolando sobre o pano molhado, inventando comida fora de hora e sendo atendida com prazer compartilhado pela Meire. Porque era neguinha, as irmãs deram a ela o apelido de Sierva Maria (de Todos los Angeles), personagem de Garcia Marquez que era fruto de uma relação extra-conjugal da senhora da casa grande com um escravo e que, por isso, foi obrigada a viver na senzala onde adquiriu hábitos afro-descendentes. A Laura sempre amou muito a Meire e foi amada por ela. Dessas coisas que crescem feito mato, com uma força e uma naturalidade admiráveis. Anos mais tarde, quando alguém, por acaso, deu a ela a confusa informação de que não pertencia de fato e de sangue à família da Meire, foi um choque. Ficou de herança da passagem da Meire pela nossa história, a sua insistente vontade de ser feliz. Apesar de tudo o que representa uma vida de quem luta pela sobrevivência no Brasil. E eu agradeço à Meire todos os dias essa herança encantada, a alegria contagiante da Laurinha. O pingo preto, meu ponto final.
Feliz aniversário, meu amor!

Meninos

Posted on 3 março, 2017

Caminho pela praia e dois meninos pequenos estão sentados, perninhas esticadas para a frente, dirigindo carros com raquetes de frescobol enterradas na areia. Seguram o volante com as duas mãos, imitam alto o som de motores muito potentes (além disso, há o barulho do mar), inclinam o corpo nas curvas, gritam, quase batem desviando de um animal na estrada. O cachorro segue distraído sem se dar conta do risco da situação. Estão suados, o vento e o sol são naturais no que imagino e eles nem consideraram, carros conversíveis. De repente, um deles se cansa da brincadeira e abandona o veículo. O outro, traído, chama a sua atenção: Não estacionou! São mil pontos na carteira! Os adultos estão conversando, vez ou outra, espiam o passeio de longe. Saudade de famílias saudáveis.

Foi mal

Posted on 2 março, 2017

A arquitetura do prédio na Vila Madalena é arrojada. Dessas que a gente não sabe dizer se é legal demais ou horrorosa. Para não errar nesses assuntos, sempre espero o interlocutor dar a sua opinião para, então, me posicionar. Dei a volta, estacionei o carro na lateral do edifício, junto a um paredão de concreto com uns recortes de grama e fui encontrar o amigo num café na rua de baixo. Meu amigo tem alma de artista e não gosta de acordar cedo. Ainda assim, marcamos às 8 da manhã porque eu tinha horário na firma, chefe, essas coisas. Ficamos uma hora mais ou menos conversando sobre algum projeto que não vingou, mas que sempre justifica o encontro. Ele mora ali perto, veio à pé e na saída, me acompanhou. Ao virarmos a esquina, vimos um grupo de pessoas perto do meu carro e eu pensei que tinham tentado roubá-lo. Quando chegamos perto, uma mulher de cabelo vermelho, vestido estampado e ar transtornado, jamais esquecerei, perguntou se o carro era meu e anunciou que eu havia estacionado na porta da garagem do prédio impedindo a saída dos moradores entre 8 e 9 da manhã. As crianças não foram para a escola, os adultos não foram trabalhar, mamãe perdeu o pilates, papai a reunião. O pessoal estava furioso de verdade e com razão. Eles não sabiam o que fazer. Pensaram em chamar a policia, um guincho. Um homem de terno forçava o vidro com uma barra de ferro. Eu gostaria de explicar que aquilo não parecia em nada com a entrada de um prédio e que nem tão rebaixada assim a guia estava, mas percebi que qualquer palavra poderia ser usada contra mim de forma violenta. Meu amigo se despediu em voz baixa. Eu também me acovardei. Pedi desculpas, foi mal aí, gente, atravessei o grupo, entrei no carro e manobrei como nunca antes, em dois movimentos meu carro estava livre. O homem do terno ainda gritou: você tem sorte, eu ia arrebentar o seu vidro! Detesto arquitetura moderna.