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A sorte

Posted on 26 abril, 2017

Acabo de encontrar entre os meus guardados, o recibo da taróloga Rosa Castro, da empresa Abracadabra, localizada no Bronx, em Nova York. Recomendadíssima por uma amiga californiana cuja vida foi, até o fim, pautada pelos sugestionamentos dessa profissional de sensibilidade aguçada, Rosa foi responsável por organizar uma “psychic party” ( é o que diz o recibo) de aniversário para mim quando morava lá. Além dos seus serviços no tarô, tivemos outras mesas com leitura da borra do café, de búzios, da aura, das linhas da mão. Profissionais do sindicato da Rosa, cartomantes e videntes certificadas por ela. A idéia da festa era uma noite com as amigas de fé (quatorze, de acordo com o recibo), docinhos, bolo e champanhe. As mesas foram decoradas com lindas toalhas brancas, velas, cristais e outras esoterices e ainda montaram uma barraca fechada para dar privacidade a um do atendimentos, já não me lembro qual. O apartamento era grande, mas a sala não foi suficiente e as sensitivas, mulheres que reuniam todos os ícones da feminilidade através dos tempos, cabelos longos, unhas longas, cílios longos, saias longas, anéis, pulseiras e panos na cabeça, espalharam-se pelos quartos também. As meninas foram dormir na casa de amigos e a beliche delas adaptada para acomodar os acessórios paranormais das bruxas. O marido viajando. A minha sorte estava decidida antes da festa. Por pena ou educação, ninguém passou nem perto, previram um futuro cor de rosa para a aniversariante, mas pouco tempo depois, meu casamento acabou. E isso não está no recibo. Comemos e bebemos ouvindo descrições minuciosas do que seriam os nossos pares perfeitos, homens apaixonados, dedicados, bem sucedidos, masculinos na medida certa. Minha amiga californiana tinha câncer e, por recomendação da Rosa taróloga, foi buscar no México um chá com propriedades curativas que levava a gente às profundezas da terra de onde só se voltava com barro nas mãos. Um mergulho dentro do mais íntimo de nós. Fui e voltei com o coração pendurado do lado de fora onde está até hoje. À certa altura, uma música espiritualizada, entre Clara Nunes e David Bowie, obrigou-nos a oferecer nossos corpos aos deuses e dançamos muito e de uma forma quase anti-social. Ainda me pergunto se o que veio a seguir trazia algum recado do além. Acordei no chão da barraca, abraçada à bola de cristal, vestida de Mother of all Saints, a janela da sala aberta num frio terrível, ainda se fumava naquela época, e os quatro canarinhos, Didi, Vavá, Zico e Djalma Santos, mortos, congelados na gaiola.

Why does it have to be me?

Posted on 23 abril, 2017


Me deu o disco como já havia feito antes com outros tesouros escavados na tulha da fazenda, um livro e uma faca de abrir cartas. Parou por um instante segurando o grande círculo preto no ar com a ponta dos dedos, virando-o para a faixa de luz enquanto assoprava a poeira. Disse que tinha sido da mãe e que agora era meu porque conheci Tony Bennet em Nova York e me gabei disso numa crônica. Ponho debaixo do braço com naturalidade, como se merecedora indiscutível do prêmio. É assim com ele, o distribuidor de sonhos, e comigo, sempre com fome. A herança que não me pertenceria de outra forma, ouro puro. Ele segue atento para os objetos esquecidos ali. A historia de cada um, a sua historia recontada e a historia emprestada do colecionador, a do antiquário, ele é agora dono do tempo. Vou atrás, eu também querendo inventar, ser dona do assunto. Esse, o tesouro maior.

A carona

Posted on 23 abril, 2017

Estava grávida, mas não posso culpar meu estado interessante pelo deslize. Já havia acontecido antes e aconteceria depois. Cumprimentamo-nos com um aceno através dos caixas do supermercado, outros consumidores entre nós. Não me lembrava exatamente de onde eu o conhecia. A sensação era de muita familiaridade, sem ser família, claro, porque fui educada com disciplina, nunca me enganaria com um parente. Já seguia com as sacolas e o barrigão em direção ao carro, quando ele me alcançou e se ofereceu para ajudar. Entreguei tudo imediatamente pensando nas varizes e perguntei se ele estava de carro. Disse que veio caminhando. Aceitou a carona e fomos conversando sobre qualquer coisa bem supérflua como o tempo ou os preços para evitar algum constrangimento. No caminho, cheguei à conclusão de que ele morava no meu prédio. Sim, era isso!
Fui embicando o carro na garagem e ele, então, pediu licença para descer antes de entrarmos. Agradeceu e seguiu pela calçada. No dia seguinte, comprando frios na padaria, reconheci por trás do avental e da redinha na cabeça, o meu carona. Sorriu: só isso hoje?

Um causo

Posted on 16 abril, 2017

Presa fora de casa numa noite de inverno em Nova York, corri para me aquecer num cinema ali perto, indiferente ao que estivesse passando. O filme vintage em cartaz, Sid and Nancy, contava a historia de um dos casais mais loucos do rock’n’roll nos anos 70. Eu conhecia os Sex Pistols de nome e sabia da fama de Sid Vicious, o desvairado ícone da cultura punk e baixista da banda. Sid estava no auge da carreira quando apaixononou-se por Nancy, uma stripper, viciada em heroína, com quem viveu momentos dramáticos à base de drogas e álcool. A intensa relação amorosa foi marcada por violência e muitos escândalos. Sid morreu aos 21 anos por overdose de heroína durante uma festa na casa da mãe quando comemoravam sua saída da cadeia onde estava preso por ter, supostamente, assassinado Nancy com uma facada no Hotel Chelsie, onde moravam. Esse é o resumo da história de amor que eu assistiria ali. O cinema estava quase vazio e decidi ir banheiro antes do filme começar. Já estava com a porta da cabine fechada quando ouvi conversas em voz alta entre várias mulheres. Não eram exatamente conversas, mas palavrões e urros de raiva que soavam como uma briga. Pelo vão embaixo da porta, pude ver coturnos pretos sobre meias arrastão sobre pernas tatuadas. Subi no vaso sanitário e fiquei quietinha ali, morrendo de medo. Elas chutavam as portas, a minha inclusive, batiam no espelho com os metais do figurino punk gritando coisas que não entendi. Achei que procuravam alguém para maltratar. Com o coração disparado, esperei que desistissem e fossem embora. Saí tentando ser invisível e voltei para o escuro da sala onde o casal protagonista se beijava com agulhas fincadas nos braços. De longe, vi a turma em suas roupas de couro, correntes, cabelo moicano, coleiras pontiagudas. Sentei-me perto de outra mulher para me sentir mais segura caso as punks voltassem ao ataque. Cinco minutos depois, a mulher colocou a mão na minha coxa e eu entendi que aquele filme não era para mim.

A vida, a gente escolhe todos os dias

Posted on 11 abril, 2017

Na subida de um morro, na Ilhabela, há uma venda modesta. O Mercadinho do Zico. Ali, ou é caiçara bebendo e  jogando dominó ou é paulistano com grana, que estaciona o carro na ruela de areia, leva o que o Zico tiver, quando ele tem, e vai embora. O Zico poderia se dar bem. Bastava vender um pãozinho melhor, um queijo da serra, umas coisas meio metidas a natureba, uns doces caseiros, umas frutas legais. Podia cobrar caro porque o pessoal de fora pagaria por esse luxo sem pensar duas vezes. Mas enriquecer, claramente, não é uma prioridade do Zico. O mercadinho está sempre do mesmo jeito, vendendo vela, pilha, margarina, salgadinho vencido, Brahma e Skol. O Zico segue sentado ali, regata marcando a barriga, um olho no mar, outro na televisão. De vez em quando, um palpite no dominó.

Assim também em Guaxupé. Durante um Carnaval, fomos andar de bicicleta pelas estradinhas de terra ali perto da fazenda e paramos num botequim pequeno para tomar água. Um daqueles bares que te deixam de porre só com o cheiro de pinga. Dois caboclos ali bebendo, umas linguiças penduradas no alto, fumo para cigarro, um cachorro dormindo. Puxei conversa com o dono: Como é que anda o negócio por aqui esses dias? Ele, quase sem vontade: Tá com um pouco mais de movimento. Olhamos em volta, novamente. Os dois caras mudos, copo na mão. Ah, então tá bom pro senhor! Não, respondeu, eu prefiro quando é mais sossegado mesmo.

Na cidade, ficava a Dita Verde, a costureira. Tinha um humor muito instável, mas era decidida. Para um lado ou para o outro. Podíamos ter muita encomenda e ela precisar de dinheiro, não importava, era o que dia determinava. Minha mãe anunciava: Vamos lá ver se a Dita está pegando costura. Entrávamos no fusca com os tecidos. Minha mãe ficava no carro com o motor ligado e uma de nós tocava a campainha. Se ela abrisse a porta sorrindo, a gente acenava positivo para a turma descer do carro. Se nos recebesse com expressão transtornada, perguntando aos gritos o que queríamos, era dar meia volta e correr. As roupas ficariam para outra temporada.

Manicure a domicílio

Posted on 10 abril, 2017

Em Guaxupé, manicure a domicílio, é aquela que a gente pega em casa e depois devolve. E assim foi. Já na volta da fazenda, trouxemos a Dádiva, filha da Diva, que mora convenientemente ao lado da padaria. A mulherada fazendo fila na cozinha. A conversa que dispensa fofoca de revista. Agora com foto no celular, a filha da cunhada do marido da vendedora da Pernambucanas rapidamente identificada. A gente também entregando o ouro que amanhã estará na casa da vizinha. Seis mãos depois, doze na realidade, e dois pés, quatro de fato, tias, sobrinhas e a avó brilhando no esmalte acetinado, recolhem-se as bacias, o algodão, o pano, o paninho, a toalha bordada de flor e ela toma o café com bolo de laranja que estava aguando desde que chegou. Fazemos a conta a lápis no verso da receita medica do meu pai. Somado tudo dá menos do que um pé, dois na verdade, no podólogo de São Paulo. Na despedida, o cachorro finalmente levanta-se e permite que ela movimente a cadeira. Gente, foi um prazer, da próxima vez eu trago o Da Cor do Pecado que ocês gostam. E então, o impasse. O carro parado, ligado em frente ao portão da casa, esperando ela entrar em segurança. E ela, educadamente, aguardando o carro seguir para entrar. Nem seguimos, nem entra. Longos minutos até que a gente se dê conta de que a domicílio, em Guaxupé, é assim.

O salão

Posted on 9 abril, 2017

Quando ele morreu e o desassossego era demais, foi para lá que eu corri. O pequeno salão de beleza do bairro. Dois andares e os espelhos dobrando tudo, nucas e franjas, tintura, tesoura, carrinho de esmaltes, shampoo, o som das vozes e do secador. Eu e minha mãe, minha avó e antes dela e minhas filhas e suas filhas, o certo, o autorizado, o intervalo comum num cotidiano batido. O tempo suspenso e nenhum questionamento além da cor, do comprimento. Redonda ou quadrada? A angústia perdendo força. Ali, como em nenhum outro lugar, estou na superfície das emoções cotidianas, a novela, o capítulo seguinte e o próximo, as celebridades em fatos e fotos passadas de mão em mão. Nas conversas corriqueiras, a moral comum, a justiça divina, a estética da classe média, o bom, o mau, o feio, o bonito. A segurança da rotina. A garantia de que a vida segue porque na quinta tem um horário marcado para mim.

Em família

Posted on 7 abril, 2017

Eu tinha 20, ele 40. Me deu o telefone. Liguei. Uma mulher atendeu: Bruno pai ou filho? Pensei que ele era casado e tinha filhos e estava me fazendo passar aquela vergonha. Pai, respondi, já arrependida. E veio o Bruno pai, um senhor de 70, que morava com o filho Bruno, meu amigo até hoje.

O coelheiro

Posted on 4 abril, 2017

Era uma vez um coelho que vivia na nossa casa em Ilhabela. Não se trata do Fred, coelho carioca, civilizado, que tomava banho de chuveiro, roía a Piauí e só fazia cocô na gaiola. Desse já falamos muito. Antes dele, houve o coelho da Ilhabela que nem nome tinha porque não se viu necessidade. Era um tipo rústico, desconfiado, cem por cento caiçara, que comunicava-se basicamente com duas atitudes, atacar ou fugir. Atacava as plantas, as flores, as raízes das árvores, a mangueira da piscina, os pneus das bicicletas. Quando interpelado, fugia por um tempo, escondido onde jamais descobrimos. O coelho da Ilhabela foi escolhido com muito critério num coelhal, entre dezenas de outros saltando e correndo nos fundos da casa de um pescador. Era disparado o mais fofo da turma, garantiu minha filha pequena. Quando expressou o desejo de ter um coelho, o Zé, caseiro, respondeu com naturalidade que era só passar e pegar lá no Dá Seta. Ele cria? Não, eles se criam eles mesmos. O Dá Seta só oferece lugar.
Veio o coelho no colo com carinhos e mimos, mas infelizmente mostrou-se avesso às humanidades. Depois de algumas tentativas de fuga frustradas, longos túneis escavados na direção do vizinho ou da rua, o Zé resolveu construir um cercado para o coelho. Gostava muito de marcenaria, o Zé. Não fez mais nada nos próximos muitos dias. Nem cuidou da casa, nem do jardim, ficou só por conta do projeto. Ia de moto até a vila, comprava madeira, serrava, martelava, tornava a ir até a cidade, mais madeira, até que terminou. Era uma estrutura exagerada, pesada, um forte blindado. Tinha que ser, ele explicou, para que o coelho não o roesse nem esburacasse o solo. A inauguração do coelheiro foi solene e o Zé estava sério. Mandou minha filha trazer o bicho e colocar lá dentro. Solta, deu a ordem. O coelho ficou alguns segundos parado, olhos arregalados, coração batendo rápido, a gente na torcida, querendo ver ele brincar. E então, ainda sem se mover, ele tomou impulso e, como se tivesse molas nas patas, levantou vôo, saltou de uma vez sobre a cerca, aterrisou do outro lado e sumiu na mata fechada para nunca mais voltar.
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Um homem de moral

Posted on 2 abril, 2017

Fui ter com o Paulo Vanzolini no ano de lançamento da National Geographic no Brasil. Estávamos montando um seleto grupo de consultores para as diversas áreas que a revista cobre e o Matthew Shirts, editor da publicação, pensou em convidá-lo para ler em primeira-mão as matérias vindas dos Estados Unidos que envolvessem zoologia. Se encontrasse algum termo mal traduzido, alguma expressão inadequada, ele, assim como faziam os outros consultores, levantaria a bandeira vermelha e aplicaríamos as correções necessárias. Vesti minha melhor roupinha, passei perfume e fui ao Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. O lugar é bonito e solene como cabe a um museu de 1941, mas assusta quem não está acostumado à meia-luz em plena luz do dia e às variadas espécies da nossa fauna largamente retratadas na fachada e nos enormes vitrais do prédio. Entrei no laboratório e Vanzolini, então diretor do museu, que estava concentrado trabalhando, parecia não se lembrar ou não querer se lembrar do nosso compromisso. Levantou os olhos por trás dos óculos e perguntou no tom mais malcriado possível sobre o que eu queria conversar. Quando expliquei minha missão diplomática ali, não teve pena e em nome do descaso com a atividade científica nacional, xingou a National, a imprensa, os norte-americanos, o governo brasileiro, todas as instituições públicas de que se lembrou. Usava expressões fortes como ” É imperioso que façamos” e sacudia os braços no ar. Acostumados com a personalidade forte, a defesa exaltada de suas opiniões e a alma artística do nosso zoólogo, os outros funcionários não interrompiam seus afazeres. De vez em quando, um deles sorria com cumplicidade para mim. Encolhida na cadeira dura, arrependida por ter me oferecido para fazer o convite pessoalmente, fazia contagem regressiva para o momento de agradecer e nunca mais voltar.
Mas aconteceu o inevitável e enquanto ele vociferava, foi crescendo em mim uma admiração ainda maior por aquele senhor que já tinha padecido febres e doenças tropicais nas dezenas de viagens de pesquisa que fez Amazonia adentro. Eu conhecia a sua biografia. A Teoria dos Refúgios nascida da observação dos espaços vazios no meio da mata fechada. Seus prêmios internacionais, a criação da FAPESP. Fui me emocionando com a sua seriedade e dedicação num ambiente científico com tão pouco apoio e recurso, como sempre acontece no Brasil. E mais, enquanto ele esbravejava de jaleco, no meio daqueles vidros e líquidos mal cheirosos, eu o via relaxado na mesa do botequim, ao lado de outros sambistas paulistas, compondo as coisas maravilhosas que estão aí. Acho que a minha expressão apaixonada foi mais forte e ele, que não era homem insensível às questões do coração, foi desacelerando até ficar completamente em silêncio me olhando. Sugeriu, então, que caminhássemos até um bar perto da sua casa, ao lado do museu. Ali, bebericando pinga durante varias horas, revelou-se o homem sedutor, o compositor boêmio, o cientista curioso e destemido que eu tinha ido procurar. Ouvi histórias, verdadeiras ou falsas, sobre as suas viagens por onze mil quilômetros de rios brasileiros, a coleção de repteis, a relação com os povos ribeirinhos e as vantagens de estar casado agora com a melhor cozinheira do mundo. Em tempo: ele não aceitou o convite da National Geographic.