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Doação

Posted on 26 maio, 2017

Passo pela avenida e reconheço na longa linha estendida, os meus livros doados. Dicionários, romances repetidos, publicações que já cumpriram a sua tarefa entre nós. Lado a lado na calçada, brilham no sol que nunca mais tinham visto, exibem-se em frente e verso, ganham a atenção há muito perdida. De vez em quando, um deles sobe pelas mãos do transeunte, faz charme, é acarinhado, cheirado, analisado. Fico espiando de longe, feito pai de menina, num misto de ciúme e orgulho, vendo ganhar o mundo o que você tinha certeza que era seu e que nunca foi.

Nem tanto

Posted on 15 maio, 2017

Meu pai está trabalhando numa série de presépios de madeira. Começou pelo tradicional, Nossa Senhora, São José, Jesus na manjedoura, os Reis Magos perfilados e os bichos, vacas, ovelhas, um burro. Há outros montados nas cabaças que ele colhe do pé que plantou ao lado da garagem. As figuras ficam menores e mais delicadas lá dentro. E seguiu experimentando como todo artista faz, se quiser honrar o título. Criou umas cenas natalinas bem minimalistas, com figuras sem rosto e animais estilizados que a gente adivinha pelas orelhas, o focinho ou o rabo. Me chamou a atenção uma delas que trazia apenas o menino Jesus entre duas Nossas Senhoras, uma de manto cor de rosa e a outra de azul. Achei admirável que meu pai tivesse ido tão longe na sua liberdade criativa a ponto de colocar duas mulheres ali. Como sempre houve aquela desconfiança disfarçada quanto à concepção do filho de Deus pela gente de pouca fé, entendi o recado. Meu pai propunha uma versão moderna da origem de Jesus. Eu disse a ele que as netas ficariam orgulhosíssimas quando vissem. Sorriu e voltou a trabalhar. No dia seguinte, quando entrei no estúdio, estava com o presépio feminista na mão: Estou aqui quebrando a cabeça para ver como coloco a barba numa delas.

A janela

Posted on 10 maio, 2017

A tia está bem, disse minha mãe voltando da visita. Aos 98, com câncer avançado, a tia passa o dia na cama. No quarto iluminado pela janelão com batentes azuis, ao lado da filha e de uma das netas, conversou e riu lembrando-se de historias ingênuas da família, despediram-se e foi só. Um dia, muitos anos antes, a tia havia me impressionado dizendo que não gostaria jamais de mudar da casa onde morava com a filha e o genro desde que ficou viúva ainda jovem. Fui até a janela e observei o muro com telhas na borda, o mamoeiro crescido, o varal com pernas de bambu e braços de arame e o galpão lá no fundo com o fogão à lenha de onde a gente tirava pedaços de carvão para riscar a amarelinha no cimento mal conservado do quintal. Foi como se me apontasse o passado, o presente e o futuro de uma vez só. Disse mais. Que era feliz olhando todos os dias para aquela janela. Eu vi o que ela via sem poder dizer o mesmo. Meus planos eram de muitas paisagens diferentes e quartos virados para dentro, com romance, espelhos e camas gigantes. A cama dela era, e ainda é, pouco mais larga do que a cama de solteiro, uma cama de viúvo. No criado mudo, havia um terço com perfume de rosas sobre a toalha de crochê e toda noite a gente ia dizer boa noite e a encontrava, já de camisola, com o terço nas mãos, rezando baixinho e achando tão bom estar ali. Quando minha mãe veio contando que a tia estava bem, eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

O artista Victor Lema Riqué

Posted on 8 maio, 2017

A entrega. Render-se, sujeitar-se, submeter-se, abandonar-se, capitular.
O artista é nada, um corpo pulsando à deriva, em mar aberto, arrastado pela paixão, sem controle, sem garantias, querendo chegar, às vezes chegando e, então, ele é maior do que tudo, é Deus sobre todas as coisas.

Abertura da espetacular mostra
La vida de las personas extraordinarias
Museo Nacional de Artes Visuales – Montevideo

A garçonete educada

Posted on 8 maio, 2017

A garçonete veio loirinha e sorrindente até a mesa, estendeu os cardápios e falou qualquer coisa muito baixo que não entendemos. Sorrimos de volta e agradecemos. Saiu. Voltou com pãezinhos quentes e perguntou algo inaudível. Concluímos que queria saber o que comeríamos. Dissemos o que havíamos escolhido e ela anotou prontamente. Repetiu os pratos lendo quase para ela mesma e quando terminou, respondemos alto, sim! sim! é isso! invertendo instintivamente a situação, como se ela é que não nos escutasse. Mostrou a carta de vinhos, apontando um ou outro e seguiu comentando as marcas num tom de voz tão baixo que tínhamos que esticar a cabeça e prestar muita atenção nos movimentos dos seus lábios para acompanhar. Concordamos com a sugestão dela mais para terminar com o desconforto do que pela qualidade ou o preço do vinho. Adiante, voltou à mesa perguntando num sussurro se estava tudo certo. Respondemos positivamente com um gesto.

Por algum tempo, cada um de nós achou que estivesse ficando surdo e foi um alívio geral quando confessei que não entendi uma só palavra do que ela disse. Graças a Deus, disse a amiga, achei que era só eu! No final da noite, ela ainda tentou explicar sem emitir praticamente nenhum som, uma sobremesa flambada, especialidade do chef. Pedimos café e a conta. Excesso de educação pode ser um problema.

Gentileza fora de hora

Posted on 2 maio, 2017

No refinado restaurante francês, conhecido pela cuisine que vem de varias gerações, acho estranho que os preços não estejam no cardápio. Deve ser chique, pensei e dou risada imaginando como vamos nos dar mal nessa aventura gastronômica às cegas. Comento com meu namorado, tentando levar a coisa com bom humor. Ele me estende o seu cardápio com os valores, como seria natural. Chamo o maitre para dizer que houve um erro: Veja, esse aqui não tem os preços! Hahaha! Ele devolve num tom quase irônico, acentuando o sotaque francês em território uruguaio, que é assim mesmo. E como se fosse uma óbvia questão de educação, explica que apenas os homens devem conhecer os preços do que estamos comendo. Indignada, mas em voz baixa, juro, digo que não é porque o restaurante é de 1878 que o mundo tenha parado naquele tempo. E que é extremante ofensivo considerar que as mulheres tenham um papel figurativo na mesa. Na sociedade. Na política. Na economia. Agora, ele é que está surpreso. Até hoje, nunca tivemos reclamação, madame. Enquanto esperava meu marido experimentar o vinho, cortesia que só a ele foi oferecida, pensei com meus tostões: se a grande maioria dos homens ainda ganha mais e tem privilégios profissionais, eles que paguem a conta. E nesse caso, muito caro.