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O dentista

Posted on 29 junho, 2017

O dentista analisando o orçamento para colocar um elevador na casa onde atendem.
Por que vocês querem fazer essa confusão toda?
Temos muitos pacientes idosos.
E custa você carregá-los até aqui em cima?
Já fiz isso muitas vezes, mas estou com as costas estouradas.

Mulheres e gatos

Posted on 29 junho, 2017

Minha filha reportando a conversa num grupo de meninas na internet que discute importantes questões de relacionamento.
– Você namoraria um cara que não gosta de gato?
– De jeito nenhum!
– Nossa, que mau humor!
– E aqueles que dizem que têm alergia?
– Ah, não quero nem papo!

Amos Oz

Posted on 29 junho, 2017

Fanáticos não têm senso de humor. Sobretudo, não conseguem rir deles mesmos. Gente com senso de humor não é fanática, a não ser que perca o senso de humor. Há anti-fanáticos que querem acabar com o fanatismo matando todos os fanáticos. Para mim, a única saída para o radicalismo, a intolerância e o preconceito é o humor. Se eu pudesse, distribuiria pílulas de humor para o mundo. 
Amos Óz, ontem, em São Paulo, sobre o radicalismo, o grande mal do século XXI.

O condomínio

Posted on 21 junho, 2017

Eu o conhecia dos verões na piscina. Bronzeado, vaidoso, bandana na cabeça, popular, gentil, sorridente. Falámos sobre musica, a vida das celebridades e os perigos de se expor exageradamente ao sol, a que ambos incorríamos. Cruzávamos, às vezes, entrando ou saindo da garagem, ele sempre nos trinques. Um dia, eu o vejo uniformizado atrás do vidro da guarita. Cumprimentei sem graça e sem entender o que ele fazia ali. A imagem não cabia na fotografia. Com o tempo, percebi que era pra valer, um emprego. A mãe, com quem ele morava, faleceu e os irmãos o obrigaram a deixar a casa. Como não tinha meios de sobrevivência, aceitou a vaga de porteiro que o condomínio ofereceu. Foi morar longe, trem e tudo. Vai e volta todos dias para o antigo endereço. Segue lendo, ouvindo musica e conversando animadamente com os moradores. Sem a bandana, sem o bronzeado, sem vaidade.
O encanador, forte, moreno, boa pinta, galã safado, na fala popular, era funcionário fixo do condomínio. Passava o dia entrando e saindo dos prédios, ferramentas, canos e tal. Consertava as coisas xingando, amaldiçoando as tubulações e os fabricantes de pias e privadas. Mas resolvia e terminava aí o meu interesse nele. Foi visto tomando uma cerveja na padaria no fim do dia com uma moradora. Sabe-se lá sobre o que a conversa corria. A mulher, cerca de 35 anos, cabeleira vermelha descabelada, era tida como ligeiramente desequilibrada, doida, na fala popular. Sentava-se com os idosos que tomavam sol no jardim e batia longos papos. De longe, ouvia-se a sua voz, avistavam-se os braços gesticulando para reforçar um ponto de vista. Morava com a mãe, uma inglesa extravagante, invariavelmente vestida de preto, cabelos brancos até os ombros, séria, de poucas palavras. O encanador passou a frequentar o apartamento delas. Agora, prestando outros serviços de ordem pessoal. A gente com inveja de um encanador disponível 24 horas. O namoro seguiu firme, ele mudou-se para a casa da sogra, a vida doméstica claramente fazendo bem ao casal. Dividem tarefas, ele dirigindo o carro da família, fazendo a feira, ela o acompanhando nas visitas aos clientes, às vezes carregando um cano. Dizem as más línguas que ele segue um galã safado. Nada é perfeito.

Amor demais

Posted on 4 junho, 2017

Ela está deitada no lavatório com a cabeça coberta de espuma e ele, de pé, ao lado, segurando a sua mão durante todo o processo. A cabeleireira dobrada sobre ela, faz que não vê e faz que ninguém vê. Tento não ver também, mas não consigo pensar noutra coisa que não naquele homem adulto, vestido de maneira conservadora, calça de pregas, camisa de manga curta e cinto, sapatos de cadarço, plantado no meio do salão num sábado à tarde, fazendo companhia para a mulher. Mais do que isso, segurando a sua mão. Tomara que chegue logo a manicure, eu penso, para acabar com essa tortura. Serão namorados? Não têm idade para isso. Ela estará muito doente? Me parece bem saudável. Ele não tem vida própria? Prefere passar o sábado segurando a mão da mulher no salão do que assistindo um jogo de futebol na TV, está rolando a final da Champions League, caramba! Não é problema meu, não é problema meu, tento me convencer. A possibilidade de estar com inveja da patética cena romântica não existe. Já me encantei com serenata feita de cima do carro, com muro pixado com declaração de amor, com tantas flores que tivemos que usar baldes como vasos, com visitas surpresa do outro lado do mundo. Nesse assunto, ou se é exagerado e extravagante ou vamos ter amor próprio, por favor. Meu pai nunca deixou passar em branco um Dia dos Namorados e quando vem com uma jóia ou um presente mais elaborado, minha mãe faz o comentário nem tão irônico de que ele deve ter uma consultora muito especial para esses assuntos. E então, lembro-me do meu avô, um médico serio e rigoroso, que usava terno de linho e escrevia poesia parnasiana e que durante a vida toda sentou-se à mesa segurando a mão da minha avó, aquela dificuldade para cortar o bife. Minha avó revirava os olhos fazendo careta. Foi paparicada por ele de todas as formas possíveis, café na cama e tudo, e fazia charme como se fosse uma chatice lidar com aquele amor dedicado cotidianamente a ela. Talvez venha da minha quase simbiótica relação com ela esse desdém fingido em relação à demonstrações do trivial afeto romântico. Quando procuro novamente o casal, eu os encontro secando o cabelo, mão dadas atrapalhando o movimento da cabeleireira. Reviro os olhos como minha avó. Não vou levar o material para a terapia. Tarde demais para qualquer remendo nesse coração empedrado.