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Acidente

Posted on 29 julho, 2017

Passei o dia inteiro trancada num quarto de hotel em Nova York com Paulo Maluf. A Veja me pediu esse freela, pelo qual eu deveria ter cobrado três vezes mais. Não pela entrevista, uma animada conversa com o ego dele, mas pelo que veio depois. Do meu gravadorzinho impotente, transcrevi horas de um monólogo em que o então prefeito falava das pontes, elevados, túneis e outros feitos que encantavam os taxistas de São Paulo e outros tantos malufistas ferrenhos. Precavidamente, fiquei fechada no quarto enquanto as meninas brincavam de futebol na sala. No segundo tempo do jogo, entediadas, elas entraram com bola e tudo e, num chute certeiro, derrubaram e quebraram o computador. O gol quem fez, sejamos justos, foi a Manuela. O deadline era em menos de uma hora. Gritei e chorei e jurei trancafiá-las por toda a vida no porão escuro de uma casa que eu compraria com as moedas do porquinho delas. As duas correram assustadas, mas já não me interessava o seu sofrimento. Estava desesperada. Lavei o rosto, respirei fundo e tentei me acalmar para reescrever aquilo tudo. Não deu certo. Já não havia tempo para arrumar o computador e a matéria não saiu. Mais tarde, veio o pedido de desculpas que eu guardo até hoje para lembrá-las que a minha provável carreira de sucesso como jornalista fracassou por culpa delas.
“Mamãe querida, a Manuela sente muito por ter arruinado seu trabalho. Eu nunca mais vou ver você trabalhando de novo. Desculpe, com amor, Luisa e Manuela.”

Fé e pecado

Posted on 28 julho, 2017

 

Do cemitério onde percorro as lápides enterradas num jardim florido, ouço o som do órgão ecoando na igreja ao lado, no alto de Alesund, uma comuna na Noruega. Era o ensaio para o concerto da noite onde se apresentariam organistas ingleses, convidados pela prefeitura. A igreja, construída em 1855, veio ao chão por um incêndio que destruiu a cidade inteira. Ergueu-se novamente em 1909. Seus vitrais retratam cenas de pescadores puxando a rede, peixes e o mar. Pendurada no teto por longos fios de metal, voando sobre as nossas cabeças, a figura singela de um barco, comum nas igrejas norueguesas, para agradecer e pedir a Deus proteção para a pesca, principal atividade daquele país. 

O seu interior era diferente do que eu conhecia das igrejas da Italia, Espanha, Portugal e, por tabela, das nossas mineiras e baianas. Menos dourado, menos colunas e balcões, poucos santos e anjos pintados ou esculpidos, menos de tudo. Só grandiosa na altura e na estrutura para o coral e para os órgãos, um de cada lado e outro no fundo, tudo erguido lá para cima, perto do céu. A música seguia tomando conta, ganhando o lugar que merece na manutenção da fé. O espírito se misturando com as entranhas da gente. Extasiada, quase contraditóriamente, eu vi o homem por trás daquilo, tive fé no homem, no músico, no pescador, não dei crédito para o abstrato. Sentei-me e esqueci de rezar. Ou rezei pecando, senti que a música justifica a vida. Pensei: não quero morrer.

Devagar na Marginal

Posted on 24 julho, 2017

A sirene da moto do policial, um oriental rechonchudo de jaqueta de couro, chamou nossa atenção. Ao lado da nossa janela, ele gesticulava indicando que parássemos no acostamento da Marginal Pinheiros. Paramos. Mal tirou o capacete e foi anunciando que minha mãe, ao volante do fusca, estava abaixo da velocidade permitida naquela via expressa. Pode multar, eu não passo da segunda marcha, ela sentenciou. Mais alguém tem carteira de motorista nesse carro? Ela tem, minha mãe respondeu apontando para mim, mas não vou deixá-la dirigir. Bem, então, terei que escoltá-los até a próxima saída e depois a senhora segue por dentro. E assim, precursores de uma lei que viria anos depois, seguimos, minha mãe, os quatro filhos e o batedor da CET, a 30 quilômetros por hora na Marginal.

Noruega

Posted on 18 julho, 2017

Da janela do carro, a imagem bucólica parece irretocável. Não se engane. Nesse exato momento, enquanto nos afastamos pela estrada tortuosa, o marido possivelmente arrasta o corpo dela pela neve. Os carneiros curiosos cheirando o rastro vermelho que sobe a montanha. Aberta pelo machado encostado junto à lareira, a cabeça branca agora pende para o lado sem resistência. Ele a puxa pelas botas ainda sujas da ida ao fiorde mais cedo, atrás de salmão fresco. Não havia. Magro e pouco feminino, embrulhado em roupas de frio, o corpo saltita no terreno pedregoso que, de longe, nos parecia um imenso e macio tapete verde. Nuvens pesadas cercam o pico como em quase todas as manhãs no ilusório verão norueguês. 
O golpe foi desferido quando ela não respondeu por que, pelo terceiro dia seguido, não preparou o peixe com presunto cru no café da manhã. Em 49 anos de convivência isso jamais tinha acontecido. Ele também não disse nada. Deixou a caneca de café sobre a mesa e encerrou todos os assuntos com uma machadada só.

Paixão adolescente

Posted on 13 julho, 2017

Trinta anos antes, ele foi meu gosto e meu olfato. Eu sentia atravessando ele e chegando do outro lado como ele sentia. Do olhar, não me tomou nada porque víamos as coisas de forma diferente. A sua segurança, emprestada para me impressionar, me diminuía e me confundia. Mas nada importava, então. 
Lembro-me com exatidão da cor clara e do desenho masculino, assim me parecia, das suas mãos, as dobras marcadas dos dedos, o desenho quadrado das unhas aparadas com os dentes. O andar com pés de pato, abertos para fora, dentro do tênis de skatista, uma vaidade justificada pelo exercício do esporte nas ruas do Rio. Lembro-me dos joelhos, das marcas de tombos na pele clara. Dos ombros largos que ele gostava de esparramar ainda mais e com força, protegendo-se do mundo. Lembro-me do cabelo grosso e ondulado, ajeitado repetidamente para o lado com a mão, num movimento adolescente que já me comovia. Lembro-me, sobretudo, dos olhos cor de mel, que eu chamava de amarelos, e que refletiam a minha melhor figura. Os óculos eram retangulares, de armação prateada, um modelo que desmentia a sua tentativa de exibir a ginga carioca. Lembro-me das pedras brilhando das ladeiras mineiras e das calçadas marcadas com sombras e sol e das soleiras das portas altas com um degrau inclinado, onde a gente se sentava, de ferias, deixando o tempo infinito passar. Esse mesmo tempo que foi a nossa medida de infelicidade ali adiante. Que eu não consegui esticar e que rompeu-se em pequenos cacos de dor. Que uma manhã me cegou e remédio nenhum aliviava a acidez da luz. Ninguém entendeu o que se arrebentou na menina. O tempo que eu não consegui remendar na distancia entre um encontro e outro: saudade.
Trinta anos mais tarde, quando nos encontramos novamente, mãos, joelhos, olhos cor de mel, amores outros ou nem tanto, confessei minha paixão imperfeita. Fiquei doente, mas não morri como deveria.