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Gato e rato

Posted on 30 agosto, 2017

 

Sentada no sofá, descalça, a escritora. Era uma manhã de sol e as janelas da aprazível residência dos meus pais, em Guaxupé, estavam abertas. Levantei os olhos do teclado, naquele olhar para o nada de quem busca inspiração e dou de cara com Piruá, o gato, saltando na minha direção com um rato na boca. Recolhi rapidamente os pés e gritei, ái, ái, mas a voz não saiu. O bicho esperneava atravessado entre os dentes do inimigo, a cabeça e o traseirão para fora. Como de costume, o gato só queria exibir-se sadicamente e demonstrar para a gente, e talvez para os cachorros presentes, como é esperto. Sem interesse no rato propriamente dito, logo abriu a boca e deixou cair a presa. O rato atravessou o tapete desnorteado e subiu a escadaria aos galopes. Eu atrás, saltitando de medo e anunciando que estávamos sendo atacados. Ninguém. Ele entrou num dos quartos onde as crianças estavam dormindo e ficou zanzando entre as roupas e os sapatos esparramados no chão, escondendo-se nos cantos escuros. Tentei assustá-lo sacudindo um travesseiro no ar, em silencio para não acordar as meninas e provocar uma comoção coletiva. Mas foi o chinelo atirado contra a parede que o obrigou a sair dali. Eu em cima da cama. As crianças desacordadas. A ratazana desceu novamente, escorregando em cada aterrissagem nos degraus, e seguiu em direção à cozinha, onde minha mãe trabalhava de costas junto à pia. Agora eu podia gritar e gritei. Ela não se moveu. Meu pai veio lá dos fundos com uma vassoura na mão e, em cinco minutos, encurralou e matou o bicho. Depois, pegou pelo rabo, jogou no lixo perto do fogão e saiu. Eu, transtornada, descrevendo a criatura repulsiva, seu olhar assassino, seus dentes afiados. Narrando em voz alta cada detalhe do que tinha sido uma das piores experiências da minha vida. Indiferente ao que acontecia, ainda sem se virar, minha mãe interrompeu: Se você já tiver terminado de escrever, vem me ajudar a picar a salsinha que estamos atrasadas com o almoço.

Amor em japonês

Posted on 27 agosto, 2017


Atsuo veio para o Brasil fugindo dos rigores da educação japonesa. Aos 19 anos, convenceu os pais de que o português era a língua do futuro. Fez alguns contatos e desembarcou em São Paulo com o dinheiro contado para dar certo em pouquíssimo tempo ou voltar. Dava expediente numa agencia de publicidade com sede em Tóquio e escritório em São Paulo. Conseguiu o estágio depois de passar vários dias sentado, de terno, na recepção da agencia. Alguém se compadeceu da sua situação e botou o menino para dentro. Com forte sotaque japonês, logo falava e entendia razoavelmente o idioma local, inclusive as armadilhas plantadas para ele pela turma da agência. Quando sentia cheiro de sacanagem no ar, perguntava sorrindo: Ironia, né? deixando claro que sabia que aquele assunto não era sério. Atsuo adorava a palavra ironia e sempre que podia lançava mão dela porque sentia que causava uma boa impressão, a de que era sofisticado na língua. Implacável consigo mesmo, fugia dos conterrâneos a maior parte do tempo. Não aceitava os convites para comer no japonês perto do escritório e poucas vezes acompanhou a turma no karaokê da Liberdade depois do expediente. Queria ser, temporariamente, cem por cento brasileiro. Foi adotado sem restrições pelo lado ocidental do escritório. Jogava futebol no time da agência para ver se, descontando os palavrões, ampliava o vocabulário suando a camisa. Dicionário em punho, enfrentava galhardamente uma batalha por dia. O português não se dobra fácil, tem regras austeras e, ao mesmo tempo, se permite exceções que traem qualquer cidadão distraído. Não Atsuo, um samurai aplicado, que preferia morrer com honra a viver sem ela, falando ou escrevendo errado.
Por fim, aconselhado por amigos e movido pelo natural interesse da idade, tentou a via romântica. Uma vendedora da loja da Havaianas do bairro, de cabelo colorido e tatuagem nos braços. O namoro, todo mundo sabe, é uma das formas mais rápidas e eficientes de se aprender um idioma. Se continuar dedicado e Santo Antônio ajudar, muito em breve, Atsuo estará totalmente integrado à língua e aos costumes locais. Havaianas e tudo.

Cemitério

Posted on 16 agosto, 2017

Desde que minha avó morreu, todo domingo de manhã, minha mãe e a tia vão juntas ao cemitério, em Guaxupé. A ligação, cinco minutos antes de sair, seria só para combinar no carro de quem elas irão, mas a conversa tem a formalidade de quem respeita um telefonema: Bom dia, como passou a noite? Levantou muito cedo? E a novela, hein? Já encaminhou o almoço? E, então, partem para a avenida no alto da cidade onde, de braços dados, fazem a rota das lápides da família, inspecionando a sua limpeza e conservação. Munidas de flanelas, lustram as molduras das fotos coladas no mármore, tiram a poeira das esculturas de anjos e santos e ajeitam as floreiras, agora decoradas com flores artificiais, uma solução que relutaram a tomar, mas que comprovou-se prática e não de todo deselegante. Não há histórico de vandalismo ou roubos no cemitério de Guaxupé. O que as preocupa é o mau tempo, a chuva ou o vento, que maltrata a conservação dos túmulos. Depois, o que os outros vão dizer? Coitada, uma pessoa que foi tão boa e ninguém para cuidar direito da sua última morada!
Ir ao cemitério aos domingos é um hábito ao mesmo tempo, triste e reconfortante. Ali, estão enterradas a maior parte das pessoas com quem minha mãe e a tia conviveram na cidade, considerando família, quase família, como se fosse da família e os outros. Caminhando com cuidado pelo acidentado chão de terra, conversam e dão risada baixinho lembrando-se de cômicos incidentes de vivos e mortos.
No ultimo domingo, estavam as duas a ajeitar as flores do túmulo de uma prima, quando avistaram o coveiro trabalhando. Aproximaram-se e perguntaram quem seria enterrado ali. O senhor disse o nome e acrescentou que o velório, ao lado, estava para terminar. Demoraram um pouco a se lembrar quem era o falecido, o coveiro ajudou explicando que era pai de tal e tal, viúvo de tal e, como não estavam com pressa, resolveram dar um pulo no velório e fechar o programa: Era um homem bom, não custa a gente ficar um pouco lá. Quem sabe se hoje não almoçamos fora para variar?

O outro

Posted on 9 agosto, 2017

Funcionava em duas etapas. Na primeira, identificava a expectativa do outro. Na seguinte, tentava, caprichava, dedicava-me a atendê-la. Com o exercício incessante ao longo do tempo, modéstia a parte, fui me aperfeiçoando até chegar perto da perfeição. Tornei-me o Zelig de saia, um camaleão humano. Escapei de descargas elétricas e drogas que, no filme, tentam tratar a misteriosa anomalia psíquica do personagem. Aqui não há enigma, só um mimetismo grosseiro para garantir a segurança de não sentir-me excluída e, ao contrário, ser aceita, até amada, pelos pares através das suas imagens espelhadas. Os mais narcisistas, apaixonaram-se. Exaustivo, mas gratificante. Quando o exaustivo ultrapassou o gratificante e a preguiça desse trabalho todo já não valia sair da rede, as conquistas não valiam o território ocupado, virei o espelho para mim mesma e doeu o que vi. Encarei. E não é que a figura que me assustava era agora, na coragem, amiga? A auto-ajuda funciona em duas etapas. Identifico a minha expectativa e tento, capricho, dedico-me a atende-la. Só alegria.