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Um cérebro encolhido

Posted on 28 novembro, 2017

Minha mãe já tinha feito a observação de que estou emburrecendo quando não respondi de pronto uma pergunta dela. Vindo dos rigores da minha mãe, tendo sido criada por ela, a crítica não incomodou. Fiz uma malcriação, corri para acertar a resposta, ela nem ouviu e estava resolvida a questão. Agora, não muito tempo depois, alguém comenta sem fazer alarde que o cérebro das pessoas encolhe com o tempo, o da população como um todo, não apenas o das mulheres como poderia sugerir a piada. Não há uma idade certa para que isso aconteça, com o correr dos anos, já não usamos todas as células do cérebro e ele vai diminuindo. As dezenas de perguntas sobre os detalhes dessa maldição genética ele não sabia responder e nem estava interessado, aceitava os desmandos da natureza humana. Saí como louca usando as poucas células que me restavam para escrever listas com informações importantes, datas de aniversários, contas a pagar, textos de gaveta, receitas, para que quando a coisa apertasse eu pudesse, pelo menos, rever a lista e seguir com a vida em dia. Burra, mas cumpridora. Consultando especialistas em sites na internet, entendi que passamos a usar menos células do cérebro e as sedentárias vão se acomodando até não terem mais serventia. Vamos ficando mais seletivos com o que absorvemos, encostamos informações inúteis que só aceleram os pensamentos num fliperama mental e trabalhamos apenas com o essencial. O cérebro, ressentido, então se vinga encolhendo. Além das listas, tentei colocar num texto minha ultimas palavras inteligentes, as que selecionei entre milhares de supérfluas, as que ainda cabem no meu cérebro retraindo-se acelerado. Sob pressão, cada minuto perdido uma célula a menos, a voz da minha mãe abrindo caminho, não consegui desenvolver nada interessante, estava fadada a conviver com o que as células julgassem útil. E se eu não concordasse? E aí uma idéia me reconfortou. A de que eu poderia pensar firme, incessantemente, em coisas consideradas importantes para quem gosta de bicho, de mar e rio, de gente excepcionalmente simples, de criança brincando, de futebol. E guardando essas informações na cabeça, sem deixás-las escapar, eu teria selecionado a porção realmente útil para me sobrar no cérebro.

A touca

Posted on 19 novembro, 2017

Era culto, educado, intelectual e tinha um sobrenome que me transportava para o leste europeu. Eu adorava fazer esse comentário. Fotógrafo. Conhecia o que era relevante no mundo. O resto, Bahia e afins, visitou pela literatura. Emocionava-se às lágrimas durante o concerto, no final do poema, diante da imagem pendurada no museu. Eu fingindo sensibilidade igual. Fazia análise três vezes por semana. Neurótico e atormentado como eu sonhava ser. Lindinho e perfumado. Tomava banho de touca quando não queria molhar o cabelo. Podia tudo. Tinha letra feia e escrevia muito bem. Articulado. Participava de intrincadas discussões sobre cinema e política quando ainda era de esquerda. A barba perfumada do charuto que ele fumava exalando inteligência.
Eu tinha a tendência de idealizar as pessoas, sobretudo os homens, na época, mais poderosos, destacados nas suas áreas, um tom acima das mulheres. Com irracional atração machista, entregava a eles o coração e o meu desejo. A esse, aparentemente mais frágil, mas igualmente superior, entreguei também a auto estima. Sabia que para me aproximar daquela imagem encantadoramente imperfeita, os defeitos assumidos sem medo, eu escondendo os meus, teria que matar, não no sentido figurado, meus pais, meus professores, minha terapeuta e talvez a mim mesma para nascer de novo. Ele era o avesso do avesso do avesso do avesso e eu não conhecia poesia concreta nem a musica. Quando de touca no chuveiro, deixava a barba ensaboada à mostra e me confundia com sinais tão contraditórios.
Uma noite, em Campos do Jordão, deitados na grama de mãos dadas, o céu por testemunha, disse que estava apaixonado pelo amigo. Fiquei em dúvida se deveria recolher ou manter a mão. Mantive para não dar bandeira. Tentei parecer sofisticada e natural, fazer observações inteligentes para a situação e não sair rolando aos gritos pela grama como tinha vontade. Ele chorou. Continuamos a olhar para o alto, perguntei se me queria perto para ajudá-lo naquele momento difícil que eu mesma não compreendia e quando ele se levantou sem responder, continuei ali imobilizada pelo susto até o corpo doer. Passou para quatro sessões de terapia por semana. Com inveja da complexidade do que ele vivia, decidi que poderia ser uma opção para mim também. Me emprestaria a profundidade e o mistério que eu não possuía. Com ares lascivos, aproximei-me de meninas bonitas, sensuais, delicadas. O cabelo, os olhos, o perfume, a personalidade, sobretudo a atenção que algumas me dispensavam num flerte imaginário. Toquei, cheirei e nada. Nenhuma sensação próxima das que eu conhecia com os homens. Eu era uma mulher comum, óbvia, cem por cento heterossexualmente resolvida. Não seria por ali a minha ascensão às profundezas da alma.
Numa conversa, já sem sermos um casal e sendo porque gente sofisticada continua sendo, deixei-o saber que eu também tinha passado por uma crise de gênero. Soou tão artificial e fora de contexto que ele fez uma vírgula e seguiu o raciocínio sobre um documentário que estava filmando. Nunca mais o vi. Soube que encaretou, tornou-se conservador, assumiu os negócios da família, mulher, sogra, filhos e tal. De tudo, o que me intriga é se ele manteve a touca no banho.

Um amor inventado

Posted on 8 novembro, 2017

Ele surgiu de repente na minha tela. Estava deitado, sorridente, de avental verde, o soro pingando ao lado, fazendo um sinal de positivo com o dedo. Sempre foi assim, bem humorado apesar da desgraceira que era a nossa vida de jornalista. A última vez que o vi, há muito tempo, circulava pela redação olhando a gente de cima naquele tamanho todo e tão de perto quanto é possível um homem doce olhar. Nunca imaginei que nos aproximaríamos pelo Facebook, nós, os últimos defensores do papel. Fiz uma visita à sua página e entendi que estava com um câncer avançado. Escrevi começando uma conversa que só terminaria no fim da história. Seguiram-se meses de papo online ou pelo telefone sobre política, ali discordávamos, poesia, comida, futebol, aqui a gente concordava na torcida pelo timão. Todos os dias chegaram flores e músicas numa entrega digital. Eu devolvia o carinho com causos bobos para ajudar a passar o tempo entre as cochiladas induzidas pela medicação. À certa altura, ele insistiu e comecei a visitá-lo. Na primeira vez, preparei-me feito uma noiva, perfume e batom, e fui me equilibrando no salto pelo longo corredor, seguindo the yellow brick road e já querendo encontrar o caminho de casa, como Dorothy na Terra de Oz. Estava ligeiramente inclinado na cama, cheirando a sabonete. Pedi um banho antes de você chegar, justificou. Além de um urso, um dinossauro e um coração de pelúcia escrito amor, não havia mais nada naquele quarto onde a luz explodia, não escondia nada. Nossas mãos geladas de emoção. Atrapalhada, quase arranquei a agulha pregada no braço fino. Ele segurou. Falamos de comida e literatura e chegamos, claro, na Nina Horta que cozinha tudo numa panela só e então dei para ele um livro dela autografado para mim que estava na bolsa. O livro passou a ficar ao lado dos bichos e do coração de pelúcia. A enfermeira entrou, ele me apresentou como namorada. Ela sorriu com ar de compaixão e aquilo me deu um calafrio. Tive vontade de brigar com ela exigindo que o tratasse como um homem igual a qualquer outro caminhando lá fora. E fugi inventando um compromisso longe dali. Saí pensando na loucura em que estava nos metendo. Não sentia por ele nada além do amor de amigo e, no entanto, pura covardia, não o desmentia quando me chamava de namorada. Nos meses seguintes, ficamos muito próximos. Fazíamos planos ingênuos para quando ele deixasse o hospital. Tomaríamos sorvete na praça ensolarada. Eu jurando que faria e diria o que fosse necessário para mantê-lo num mundo encantado. Inventei uma missão para mim. Como ele, precisava daquilo para me sentir amada. Estava consciente de que havia um vínculo neurótico de dependência entre nós, a nossa sobrevivência.

Sempre que enfrentava algum procedimento de risco, foram tantos, ele brincava, estou oco, só não me tiram o coração por sua causa. Eu sabia que sentia medo e garantia, segura a minha mão, estou aí com você.

Às vezes, estava entubado e não podia falar. Ficava aquele silêncio desconfortável no quarto, ele sorrindo com os olhos cada vez mais fundos e arregalados, digitando no celular com dificuldade e erros que jamais cometeria, o que queria dizer. Na Páscoa, alimentado pela sonda, pediu à enfermeira que comprasse um ovo na lojinha do hospital, me fez abrir na hora e comer ali na frente dele. Eu querendo chorar, lambuzada de chocolate e ele orgulhoso de poder me dar o presente. Depois, piorou tanto que eu não queria mais ir até lá para não deixá-lo constrangido naquela condição desumana. Ou muito humana, fracos e prepotentes que somos.

Antes que eu respondesse ao seu platônico pedido de casamento, ele se foi. A irmã ligou dando os detalhes do enterro e acrescentou, ele amava muito você. E então, pensei que a gente precisa desesperadamente amar para se manter vivo. E nem assim.