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Desentortar

Posted on 28 dezembro, 2017

 

Abri a porta e a maca me cumprimentou: boa tarde, dona Marina. Detrás dela, saiu a Poliana, baixinha, gorducha, uniformizada de branco, suada a tal ponto que não me permitiu beijá-la. A mão igualmente molhada despertou dúvidas sobre a decisão de aceitar a massagem, um vale presente de Natal da amiga. Não estou acostumada, mineiro não acha graça nessas intimidades com estranhos. Apontei o quarto e a maca caminhou arquejante de tênis brancos. Mesmo com as costas doendo, ofereci para ajudar, mas ela não aceitou e enquanto estendia um lençol de papel explicou que normalmente as macas são menores e mais leves, mas justo na sua vez só sobrou o modelão antigo. “Todo fim de ano, o movimento aumenta demais. Esse, em especial, por causa da crise, todo mundo travou.” Esparramou óleo, fez movimentos circulares, beliscou com as pontas dos dedos e anunciou que ia subir na maca comigo para usar os cotovelos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Fingi que era dor a dor que deveras sentia. Pedi para encerrar.
No dia seguinte, mais entortada, arrastei-me para o quiroprata que me indicaram para terminar o serviço. Nunca tinha recorrido a um. Pensei em quiromancia e achei que podia ser uma saída magica. A pressão era quase insuportável, os presentes, a ceia, as contas, as malas, um esquema para cuidarem das plantas e dos gatos. Quem desentortaria minha vida? Cheguei atrasada, o homem estava parado ao lado da cama, braços cruzados, seríssimo. Mudo. Eu, ansiosa, disparada a explicar o transito e as tarefas injustas de uma mulher no Natal. Ele olhando para mim, calado. Achei que ia me agredir. E ia. Mas não ainda. Perguntou se eu estava com medo dele ou se era timidez abraçar a cadeira daquele jeito. E esses ombros para cima? Larga a bolsa e me conta o que se passa com você. Eu disse que tinha acabado de dizer, uai: “É o fucking Natal, você é homem, não entende.” Sorriu com o ar blasé que os seres espiritualizados adoram nos jogar na cara quando estamos descompensados. Descrevi minha sensação enquanto me deitava. “Estou virando a bruxa da Branca de Neve, lembra? Não consigo me esticar. Como se um elástico gigante puxasse as extremidades e…” Não terminei. Apertou um ponto qualquer perto da coluna, achei que ia desmaiar de dor. Gemi com vontade de chorar e ele garantiu que se eu aguentasse saía nova. Fiz as contas e pensei que se me tirasse uns onze, doze anos, sim, valeria a dor. E então veio uma pressão demorada com o dedão debaixo dos braços, o sofrimento excruciante e o comando: Coragem! Abraça Jesus! Não tive tempo de mandá-lo para o inferno, partiu para a outra extremidade e torceu meus pés para dentro, à Curupira. Achou meu maxilar rígido, fez ganchos com os dedos, meteu-os lá dentro da boca puxando as bochechas para cima como se fosse me pendurar nas suas mãos. Perguntou se eu confiava nele. “Tenho outra alternativa?” Segurou minha cabeça com as duas mãos e com um movimento forte e súbito girou-a como a menina do Exorcista fazia no filme. Ficou decepcionado porque não estalou. Quando terminamos a sessão, perguntou como eu me sentia. “Com muita raiva de você”, respondi. E saquei minha arma letal. Avisei que era escritora e que me vingaria dele assim que saísse dali.

 

 

 

 

 

O Copa

Posted on 5 dezembro, 2017

Fui convidada para uma festa elegante no Copacabana Palace. Show de Elza Soares, o toque cool para convidados que, de outra forma, jamais a ouviriam. Levei meu vestido longo, o único, mandei passar no hotel, pendurei o cabide na porta do armário. O quarto com vista para a piscina mais famosa do país, a que já foi testemunha de célebres encontros e desencontros, porres, discursos e performances escandalosas, hóspedes ricos de verdade, falsos ricos, roqueiros e misses, o chique, o chique despojado e o novo chique. Ao lado da cama, sobre o tapete iraniano, o salto 12 tinha antecedentes desagradáveis. Escorregou comigo no palco encerado de um teatro em São Paulo durante a entrega de um prêmio de jornalismo. Fui salva por um movimento ágil de bailarino do Zeca Camargo, meu par no evento, que me segurou com elegância no momento do vôo e a quem serei eternamente grata. Olhei para o bico fino do sapato, ele olhou para mim. Não fizemos as pazes. Fugi para Ipanema e passei o dia de dieta para caber no vestido, só na água de coco e biscoito. Fim de tarde, pôr do sol carioca perfumado de maconha, atravesso a rua para um gin tônica escondido no Fasano, concorrente do Copa, imagina se ficam sabendo. O barman, com sotaque baiano matador, me convence a tomar outro. Tiro um cochilo de biquini sobre o edredon de pena de faisão dos alpes suíços e quando acordo, dou de cara com uma triste figura refletida no espelho. Sigo para a árdua tarefa de auto-restauração que invariavelmente impacta o porteiro do meu prédio: Opa! Se reproduziu toda, hein, dona Marina? Meia hora tentando descobrir o segredo do chuveiro. Me encaixo debaixo do chuveirinho, para a minha estatura é até melhor. O cabelo precisa de secador e gel. A maquiagem, emprestada da filha, esparramada pelo espetacular mármore branco. Dá vontade de deitar na pia. Peço uma caipirinha com cachaça para chegar no tom da Elza. Preço de uma refeição. Comento com o funcionário que trouxe e ele diz que para o dólar está barato. Yes. Encho a banheira para um banho de espuma. Não é porque estou sozinha que não vou sensualizar. Antes, tiro um uísque do frigobar, não encontro o gelo, depois encontro, mas já é tarde. Agora eu sou cowboy e o meu cavalo só falava inglês. Ou era a noiva do cowboy? Escorrego na espuma. Sem querer, molhei de novo o cabelo. Ligo para uma amiga que também vai à festa e ela me aconselha a pedir champanhe com aquela conversa do “eu mereço” que já faliu muita gente que merecia mesmo ficar pendurada no cartão para largar mão de ser besta. Vem outro rapaz. Coloca o balde na mesinha. Dou uma gorjeta no valor da caipirinha. Volto para a maquiagem e levo um beliscão do curvador de cílios. Sinto vontade de chorar. Ligo a televisão e está passando As Pontes de Madison que com champanhe fica ainda mais triste. Vou borrando a maquiagem até o fim da garrafa. O vestido justo pendurado, mole, cheio de preguiça. O salto doendo nos pés ainda descalços. Sinto um desânimo enorme e me lembro da minha avó deitada, camisola bordada, tercinho na mão, com pena da gente indo para o baile em Guaxupé. Agora eu sou ela na sua cama confortável. Peço um sanduíche que vem com batata frita e picles debaixo da tampa de prata. Coca-Cola. Me esparramo no sofá embrulhada no robe macio assistindo Seinfeld. Ái, o Copacabana Palace!