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Tantos amores

Posted on 20 janeiro, 2018

Uma mulher pode ter muitos amores. E pode até se casar com um ou mais deles. Casar-se com um amor não invalida os outros, que permanecem boiando de longe na mesma água. Apenas no papel, reconhecido pelo juiz, é que só vale um casamento, o que, cá entre nós, nunca valeu de verdade. Certa vez, registrando algum documento no cartório, fui flagrada gaguejando meu estado civil. Eu não me sentia casada apenas com quem estava casada. Havia espaço no meu coração para outros eventuais amores. De certa forma, naquele momento, eu era solteira. Foi aí que me faltou firmeza. Tentei descrever esse estado de espírito, tão distante do civil, com a poesia e a profundidade que ele pedia. Não alcançou: Minha senhora, bigamia é crime, sabia? Preferi não argumentar com o funcionário do cartório que, além de tudo, me pareceu um marido burocrático, daqueles que só reconhecem a sua firma quando fazem sexo com a esposa. Esposa não é mulher. O manual interno da Folha de São Paulo, há muitos anos, sugeria que os jornalistas usassem o termo esposa quando se referissem a uma mulher casada com alguém citado na matéria, a esposa de x ou a ex-esposa de y. Como se a breguice se estendesse de estar noiva até ser esposa. Desposar é antônimo de acasalar. Bom mesmo é quando numa disputa de mulheres, uma delas adota “o meu homem.” Muito mais quente do que “o meu marido”, que fica morno no instante em que se pronuncia o status legalizado. Na cena de um filme, a mulher exigiu sair ao lado do marido na foto da carteira de identidade dele. Revelava, por trás da piada, a necessidade inevitável de ser dono da pessoa que se ama. É legítimo querer documentar para sempre a sensação momentânea de propriedade que a paixão impõe. Eu preferiria a documentação assinada com nossos nomes pela fumaça de um avião sobrevoando a praia diante dos olhos de centenas de testemunhas. Vai com o vento, mas é muito romântico e honesto. As testemunhas da paixão alheia deveriam ser como os banhistas observando no céu o amor entre duas pessoas. Como nos casamentos em Las Vegas que vemos nos filmes. As testemunhas lá, como aqui, são desimportantes. Apenas emprestam as suas presenças para aquele arroubo do coração. Testemunha de um casamento meu, a amiga seguiu conosco numa longa viagem de lua-de-mel de carro e quase foi deixada na estrada, arrependidos que estávamos de tê-la convidado. Foi na euforia da bebida, ela estava linda na cerimonia, tinha uma bolsa vermelha que me encantou e um decote profundo que encantou meu marido. Nunca mais a vimos e o casamento eventualmente acabou.

Na poltrona da frente do avião em que me encontro, o rapaz descansa a cabeça no ombro do outro e deixa à mostra a marca branca da aliança no dedo anular. Me lembrei de quando os homens escondiam a aliança para enganar mulheres solteiras e a gente fingia que não percebia para não perder a noite também. Aqui, acho mais fácil que seja a marca assumida do fim de uma história recente. Uma declaração de amor escancarada. Ou seria o proibido que excita? Não importa. Do meu privilegiado ponto de vista, observando os cocurutos colados, está claro que nesse momento, eles estão casados enquanto dure.

Casamento ortodoxo

Posted on 10 janeiro, 2018

A amiga, fotógrafa oficial de eventos da comunidade judaica hassídica, de Nova York, fez o convite que há muito eu esperava e nos levou, eu e minha filha, como assistentes num casamento no Brooklin.
Nevava naquela noite, desci do carro, escorreguei no chão congelado do estacionamento e caí de joelhos. Voou a escadinha que ela usa para fazer as fotos do alto, acima dos chapéus de pelo pretos usados pelos homens durante a cerimonia. Segui manquitolando, um frio de lascar, na escuridão e no silencio do bairro, ela puxando um carrinho com o resto do equipamento num passo apertado e decidido. Não é tarefa para qualquer um. Os casamentos atravessam a noite e ela só recolhe as traquitanas depois que o ultimo convidado sai. É judia, nada ortodoxa, mas conhece todas as regras e excessões, os ângulos permitidos, os não autorizados por essa comunidade ultra-conservadora. De vez em quando, avança o sinal e arrisca uma bela foto de algum detalhe emocionante, curioso e proibido. A mãe preparando a filha para a cerimonia, a menina com as mãos branquíssimas sobrepostas. Um registro que vale a trabalheira oficial. Apresentamos-nos na entrada do salão, as duas mal ajambradas em uniforme de guerra, paramentadas de preto da cabeça aos pés. A autoridade à porta, barba e cachinhos nas costeletas, ortodoxamente vestida com chapéu e casaco longo pretos e o talim, um xale religioso com tzitzit, as franjas nas pontas, olhou feio como se desconfiando acertadamente das nossas origens e intenções. Ela atravessou a hierarquia masculina e e entramos.
O enorme salão dividido por um longo biombo, um lado para as mulheres, outro para os homens. Do lado de cá, onde ficamos, mesas decoradas esparramadas nas laterais, dezenas de crianças correndo e um estacionamento de carrinhos de bebê com os bebês dentro. O lado de lá, onde homens que me pareciam gêmeos entre si, cantavam e dançavam abraçados. A gente espiava por uma fresta que as convidadas tinham aberto e onde se divertiam como crianças fazendo coisa errada.
Seguimos com dificuldade as instruções técnicas carregando por toda parte a escada e um mastro com a luz, tentando ser discretas em nossos trajes camuflados e não sendo. Trocamos olhares de viés. A amiga circulava desenvolta, montando grupos, atendendo pedidos para registrar um ou outro familiar, ela também personagem da cena. Atravessar o ritual era mergulhar num mundo fantástico, vindo de outros tempos, parado nesse tempo.
A adolescente proibida de sacar o celular. O que acontece ali, fica ali. Eu queria fotografar na memória cada instante da cerimonia emocionante e, de certa forma, triste. Uma noiva menina, escolhida pelas famílias, mal conhecendo o noivo, seguindo obediente o curso previsto pela religião. Cobrir-se respeitosamente até os pés, cortar o cabelo, usar uma peruca com um lenço por cima, ter muitos filhos e não se interessar pelo que acontece fora da comunidade. Chegou a sua vez. Iluminando o ambiente escurecido pelas roupas dos convidados, ela surge frágil, imaculadamente vestida de branco, véu sobre o rosto, as mãos claríssimas de uma vida na sombra tocadas pela primeira vez pelo noivo.
Na volta, o carro sambando no gelo, a musica no radio acompanhando o ritmo, eu fechada em silencio, profundamente perturbada pela experiência. A amiga checa as mensagens no celular e suspira: amanhã tenho outro, acho que nem vou tirar o equipamento do carro.

comadre

Posted on 7 janeiro, 2018

O ônibus saiu quase vazio de Guaxupé rumo a São Paulo. Em pouco tempo, o de praxe:
-Comadre, vem sentar aqui na frente.
-Ai, não vou, não. Já me arranjei aqui no fundo com as sacola.
-E esse ano que não vira. Virasse, tava melhor.
– E então.
– A Marlene ficou lá cuidando dos cachorro? Tá bebendo muito ainda ela?
-Toma aquele, como se chama?
– O Domeck.
-Então. Mas dá conta do serviço de casa, traz sempre limpinha, arruma a comida, as criança sempre arranjadinha. E faz tudo até às três. Deixa até a janta pronta. Aí, começa beber e vai até a novela.
-Tá certa ela. O Jaldair sempre bebeu. Dormia agarrado na cachaça. Ela dizia, escolhe, Jaldair, é ela ou eu. Ele escolheu a cachaça. Então, a Marlene saiu do quarto. Dorme no sossego dela na sala. Nem tem que aguentar as graça dele de noite. Ficou tudo bem arranjadinho, lençol de cima, cobre leito e tudo.
-Jaldair é trabalhador demais. Se acaba lá no terreno do Waldir, todo mundo sabe. Aí bebe e chega em casa que não se aguenta, falando besteira. Ela deu com o cabo da vassoura nele outro dia. Aí, ele maldou se ela agora trabalha na polícia. Vai vendo. Aí, ela disse que se fosse polícia tinha já jogado ele no mato, ponhado a bebida nele todo e tocado fogo.
– Cachaceiro.
– Então.