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Dona de casa

Posted on 19 março, 2018

Abriu a embalagem do amaciante concentrado, colocou meia tampa na máquina e o resto ela tomou para se matar. Não botou para fora, como se poderia imaginar. Engoliu tudinho e jogou o pacote no lixo entre restos de macarrão da noite anterior. Pensou que se a coisa demorasse, talvez desse tempo de estender a roupa. Nunca gostou de deixar serviço de casa para trás. O cheiro do amaciante ficou no ar. Era um perfume doce que distinguia as camisas do marido, quando ainda o tinha, e as roupas das crianças de outras famílias do bairro, um luxo que se permitia como recompensa pela trabalheira. Uma vez, quando foi lavar roupa, ficou um bocadinho do líquido azul nos dedos e ela lambeu e não achou ruim. Foi por isso que quando a intenção veio sem alternativa, ela escolheu o amaciante. Podia também ter sido Cândida, reconhecida pela eficiência em tudo o que se mete, mas esse cheiro ela não suportava nem nas mãos quando torcia os panos de chão, que dirá beber! Sabia de uma comadre da mãe que bateu veneno de rato com a massa de bolo e comeu. Era uma boleira de mão cheia e quando a situação apertava ela vendia para os professores da escola onde trabalhava. Então, ninguém estranhou quando veio a notícia. Maldavam que a casa dela vivia infestada de ratos e que se não fosse do veneno, ela morria esmagada numa ratoeira. Nojo.
Antes de seguir para a lavanderia, ela preparou o lanche das crianças. Pão de leite com requeijão light que estava em oferta e naquela manhã substituiu a margarina. Sorriu pensando na surpresa dos meninos quando mordessem o sanduíche. Abriu as garrafas plásticas, colocou o Tang sabor manga que eles gostavam e checou se as tampas estavam firmes para não derramar na lancheira. Uma banana. Despediu-se se deles no portão sem arrependimento e dirigiu-se mecanicamente até a janela para vê-los atravessar a rua e seguirem pela calçada até sumirem na esquina. Veio a sensação boa de que eles dariam conta de caminhar sozinhos pela vida. A vizinha lavava a calçada empurrando o cisco para a rua com a mangueira. Sacos pretos amontoados, à espera do lixeiro, os cachorros rondando, imaginou que logo estaria metida num deles. Com as mãos cheirando alho e os olhos arregalados de excitação, a vizinha lamentaria o ato desesperado: Eu ainda vi ela no chão. A coitada se foi inteira azulzinha! Repetiria um milhão de vezes as palavras dos policiais e descreveria com detalhes fantasiosos a expressão culpada do ex-marido, o número de contato pregado na geladeira para uma emergencia das crianças, que chegou correndo acompanhado da nova mulher, “lindíssima e extremamente bem vestida”, ela diria para apimentar a história. Sentiu uma ponta de prazer constatando que seria, talvez pela primeira vez, o assunto no cabeleireiro. Na feira. Na padaria. Agora ela era a protagonista aparecendo todos as noites na novela. Era a mulher romântica que leva o amor às últimas consequências. Ele é o viúvo que chora desesperado debruçado sobre o caixão. Faz questão de pagar as despesas de um enterro de primeira. A pensão pesando na consciência. Ela renasce no último pensamento dele antes de dormir e no primeiro ao acordar. A fotografia nos porta-retratos dos filhos eterniza sua presença na casa onde eles moram com o pai. E então, vai para a lavanderia.

Medo de avião

Posted on 6 março, 2018

A mulher ao lado esfrega as mãos particularmente magras e aperta uma contra a outra numa maçaroca para, em seguida, esticar e estalar os dedos. Depois, se abraça como se sentisse frio. Não sentia. Estava de vestido de alça. Dobrou e rearranjou varias vezes o casaco no colo. E, se quisesse, fechava a saída do ar-condicionado. Quando todo mundo fez descaso, ela esticou o pescoço no limite para acompanhar atentamente as instruções de segurança da comissária de bordo. De vez em quando, checava o cinto, dava um tranquinho no fecho com aqueles dedos finos dela. Estava espremida na poltrona do meio e num primeiro momento achei que poderia sentir-se sufocada, sem ter para onde correr se precisasse. Depois me veio uma sensação de aconchego que nós duas, eu na janela e a outra mulher no corredor, estaríamos garantindo a ela.
Tive pena, cúmplice daquela situação que eu conhecia tão bem. Por anos, tive pavor de viajar de avião. Minha terapeuta explicou que pânico mesmo é quando você não consegue voar. Eu ia e vinha de Nova York o tempo todo. Suando, sem ar, o corpo tão enrijecido que quando chegava do outro lado não podia puxar a mala. Sacava da bolsa o livro sensacionalista comprado no aeroporto, o assassinato do Kennedy já tive em duas ou três versões, até cansar de reler repetidamente a mesma frase sem gravar uma palavra. Rezar não adiantava, a fé não chegava tão alto. Não podia, como me sugeriram e até me presentearam, tomar um remédio desses que desmaiam a gente assim que se senta. Uma amiga tomou um comprimido tão forte que teve que ser carregada e acordou no pronto-socorro do aeroporto quando o avião não levantou vôo por problemas técnicos. Eu tinha filhas pequenas e não podia comer, nem ir ao banheiro, que dirá dormir. Chegava tão acabada que, uma vez, na Imigração do aeroporto Kennedy, uma oficial daquelas que metem medo pelo tamanho, pela voz e pela dureza, me recebeu com um “Oh, poor woman” que me fez chorar. A coisa só melhorou quando me dei conta de que, felizmente, não tenho controle sobre o desempenho do avião ou sobre quase nada nessa vida. Hoje, quando muita gente importante saiu do armário confessando seu mal-estar nas alturas, eu solto o corpo e deixo o piloto me levar.
Não sei se foi o copo d’água que ela bebeu aos golinhos, quase errando a boca que me convenceu de que eu devia, que era meu dever naquele momento tentar amenizar o sofrimento dela. Perguntei solidária: Você tem medo de avião? Ela virou-se para mim e devolveu: Não. Por que? A resposta monossilábica foi uma surpresa grande e eu, piorando a situação, expliquei: Por nada. É que eu vi você mexendo as mãos de um jeito que parecia. Ela não disse mais nada. Olhei para o céu lá fora e falei baixinho para mim mesma: Às vezes a pessoa tem, uai.