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Nas entranhas do DETRAN – Parte 1

Posted on 26 junho, 2018

 

Apontei para mim mesma desacreditando. Eu??? O guarda, armado de metralhadora ou coisa enorme parecida, confirmou com a cabeça e indicou o meio fio onde outros carros eram revistados por fora. Só pode ser grana, falei mais uma vez comigo mesma, observando que os carros parados pareciam novos e de boas marcas e que, enquanto os policiais sadicavam os motoristas em seus carros blindados, dezenas de motoqueiros desfilavam pela avenida aliviados dentro de seus capacetes.
-CNH e documento do carro, por favor.
-CNH…
– Carta de habilitação. Tire do plástico , por favor.
-Seu IPVA não foi pago.
-Não pode ser, moço. Checa lá. Eu me lembro claramente ( mentira, estava em dúvida agora).
– Já checamos.
– Tão rapido? Por favor, olha direitinho de novo ( mais tarde, me contaram que um acessório novo indica de longe, pela placa, qualquer irregularidade).
– Está vencido.
– Moço, se o documento estiver em casa, eu vou voltar aqui, juro.
-Vamos ter que reter o veículo.
-Como assim? Vou deixar o carro aqui?
– Vai ser guinchado.
-Ô meu Deus, ele nunca subiu num guincho antes. Maltrata muito? Mandei lavar essa semana. Onde eu pego de volta?
-Diadema.
-O senhor tá brincando.
-Chave do carro.
-O que?
-Chave do carro, por favor. Aguarde a notificação, vou preencher na viatura.
Saiu sem pedir dinheiro. Olhei a carteirinha plastica com o nome do despachante e liguei. Como não sabia exatamente o que pedir, desliguei.
Meia hora depois, um sol de rachar, vou procurar o meu entre vários guardas. Meti a cabeça na viatura.
– Oi, vai demorar?
-Permaneça no veículo até eu terminar, por favor.
-Só queria dar uma apressadinha porque tenho queijo fresco no carro.
– Volte para o veículo.
Continuou escrevendo à mão. Tive pena da sua dificuldade com a papelada. País atrasado, pensei, mas não comentei. Pela janela, disparou a ordem.
-Pode retirar tudo do carro antes de sair.
Juntei as sacolas de supermercado com o que havia comprado para o jantar que ia oferecer mais tarde. Vinho numa caixa de papelão que o empacotador descolou no depósito. Deixei o cabo rasgado do aspirador e uma sacola com livros de psicologia da minha filha. Achei que ninguém ia se interessar. Peguei um taxi com um motorista com tanta raiva do mundo quanto eu.
– Filhos da puta! Pena que o Datena não vai sair candidato! Acabava com essa brincadeira!
– É.

Nas entranhas do Detran Parte 2 – O resgate

Posted on 2 junho, 2018

 

Para a liberação do veículo, o site do Detran pede que o infrator defina a que batalhão pertence a Policia Militar que o abordou na blitz. Nem sabia que era a PM. Nunca tinha pensado no assunto dos uniformes, exceto quando o prefeito repaginou os marronzinhos, agora amarelinhos, e a Cidade ficou Linda.
Às sete em ponto do dia seguinte, desço a escadaria da estação Armênia do metrô. A primeira senha. No guichê, soube que o valor, IPVA, multas e outras punições, teria que ser pago em dinheiro vivo ou no débito e eu não tinha nem uma coisa outra porque o valor ultrapassava o limite do cartão. Atravesso apressada o pontilhão atrás de um banco esquecendo que só abre às dez. Diminuo o passo e dou com simpáticas lojinhas de bairro e simpáticos vendedores. Comprei amêndoa e pistachio, dentaduras de açúcar, jujuba, miçangas coloridas, chita. Tudo por quilo. Passei por um barbeiro/bar, uma afiadora de alicate de unha e dezenas de portas com acessórios falsos para celular. Na padaria, onde me permitiram ficar por quase duas horas numa mesa com um copo de café, assistimos a Globo na Copa, pobres repórteres que, como eu, tentavam achar graça na desgraça que é cavar matéria nova todo dia. A fila na porta do banco já estava formada por três ou quatro idosos conversando. Eu com cem quilos de compras na bolsa. Outra senha. O rapaz do caixa tira o dinheiro, conta as notas e separa em montinhos com elástico me instruindo a distribui-los pelos bolsos. Alertou sobre os perigos do bairro. Pensei que ali quem não era assaltante era extremamente gentil. Abraçada nos meus bolsos, volto ao guichê do Detran, agora com centenas de pessoas com números de senha abaixo da minha. Pago uma pequena fortuna e recebo papéis que devo apresentar noutro guichê. Senha. Pediam cópias de documentos que eu deveria levar ao Detran de Diadema, mas que seriam carimbados ali. Dirijo-me ao xerox/lanchonete do outro lado da rua e espero a minha vez na fila entre pessoas que almoçavam ao longo do mesmo balcão. Na volta, nova senha, passei por um guichê exclusivo para despachantes, quem dera, e esperei ao lado de um casal muito simples, ela, mirradinha, ameaçando a sogra de morte “a véia desgraçada”, dois namorados segurando os capacetes da moto e se pegando de dar inveja, gente sentada, gente de pé, crianças correndo, a clientela diversificada. Chamaram o 154, agora eu já chegava espiando a senha do outro, eu com a 177. Entrego os documentos e a moça garante, eu fiz jurar, que ligava para avisar que eu podia ir até Diadema recuperar o carro. Não ligou. No dia seguinte, meti-me num Uber e, por minha conta e risco, mãe cê tá louca, parti para aquele município achando que era uma viagem, nem foi. Como desgraça burocrática pouca é bobagem, era dia de jogo do Brasil e o país parava de funcionar às duas da tarde. As ruas com ares de fim do mundo. O Detran de Diadema lotado. Entro, puxo a senha mecanicamente, fila, apresento a autorização do Detran de São Paulo. Sem a emoção que corresponderia ao momento, o rapaz anunciou que o veículo estava à minha espera no pátio a quinze minutos dali. Outro Uber. Esse, sem aplicativo e sem noção do destino: a senhora pode me dirigir, por favor? Claro, vamos trocar de lugar , tive vontade de responder. Lembrando um presídio, o gigantesco portão de ferro abria o suficiente para passar uma pessoa de cada vez. Uma multidão aguardava rendida o chamado para adentrar um puxado de laje sem ar-condicionado, receber uma senha e ser atendido, se é que se pode chamar assim, em três guichês fechados com vidro escuro, à prova de bala, diziam os que estavam há horas presos ali. No último guichê a placa com os preços, dependendo da categoria do carro, de quantos dias “usou” o estacionamento, taxa de guincho e tais. Outra pequena fortuna. De um pequeno alto-falante abafado, soando fanho, saíam os nomes e números das senhas dos infratores. O tempo correndo, o jogo se aproximando. A má vontade dos funcionários ajudando a apertar o relógio. Ninguém entedia o que o microfone dizia. Ansiosa, enlouquecendo de calor, postei-me com a ouvido colado nele e passei a fazer a tradução aos gritos. Vinha Walter Wilson da Silva, eu repetia Walter Wilson da Silva! Os gritos pelo Walter Wilson se multiplicavam pela multidão até o Walter Wilson chegar ao guichê. Um ou outro mais lento era carregado para a frente. Uma senhora mostrou a mancha roxa no braço e contou que ao receber a chamada para o resgate do carro, arrancou a agulha da hemodiálise e correu. Outra passou o lencinho de papel para um rapaz suando: tá limpo, pode usar, só chorei nele. A menina da vez tentava escrever o nome com a mão esquerda, a direita engessada. Num misto de generosidade e desespero, me ofereci para preencher o formulário por ela e já estava no sobrenome do meio quando ouvi o grunhido do outro lado do vidro dizendo que só ela podia fazer isso. O jogo chegando. A turma se tornando inquieta. Um homem tremia tanto que não conseguia contar o dinheiro. Depois de xingar aos palavrões o Detran, o governo, o time do Brasil, as mães de uns tantos filhos seus, anunciou que ia fumar um baseado e voltava depois. Era de novo o cartão de débito ou dinheiro vivo. O pessoal, sempre na segunda opção, empurrava as pilhas de notas por uma pontinhola giratória de onde mal ouvia-se a ordem para finalmente dirigir-se ao pátio. Eu ajudando a despachar aquele e apressar o próximo. Vamos gente, prestenção, quer perder o jogo? Quando me chamaram, enlouqueci. Era como se fosse a chance de subir no ultimo helicóptero saindo de Saigon. Suada e sorridente, com ar de superioridade, abri caminho entre a turma de senha na mão e subi o ladeirão até o pátio onde os carros tomavam sol. Pediram que eu checasse o veículo, dentro e fora, entregaram a chave, digitei São Paulo no Waze, liguei o radio para ouvir o segundo tempo do jogo e segui para casa certa de que tinha me dado bem.