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O fusca

Posted on 26 agosto, 2018

Papai intermediou a negociação do fusca entre o tio Marcos e o primo Marcelo. Um modelo 79, branco, único dono, quase todo original e em excelentes condições. Chapa de Guaxupé. Foram os entusiásticos elogios numa festa da família em São Paulo que despertaram o interesse do primo, cujo primeiro carro foi justamente um fusquinha, só que azul claro, herdado do avô. Quase todo mundo que teve um fusca um dia diz sentir saudade. Não no sentido de querer tê-lo novamente ou até, mas sobretudo uma melancolia, a constatação de que o carrinho, chamado assim para quem olha para trás, foi cúmplice e parceiro daquele trecho da vida. Dizem que o fusca nunca deixou ninguém na mão, acho que é também dessa lealdade que falam. Movido por todos esses sentimentos e alguma vaidade, já que dirigir um fusca conservadíssimo hoje em dia é atenção certa, o primo tomou um ônibus e mandou-se para Guaxupé, onde encontrou o carro encerado, reluzente, um agrado que meu pai fazia a ambas as partes. O orgulho de ter apresentado quem não queria vender a quem nunca tinha pensado em comprar e realizado o negócio com sucesso. É que o tio tinha uma dificuldade enorme de passar o carro para a frente, nem usava, nem vendia, gostava de saber que ele estava lá, há 39 anos devidamente coberto por uma capa de lona na garagem da fazenda. Só tomou coragem decisiva e à contra gosto quando lhe roubaram um trator e ele percebeu que estavam de olho nas suas posses. Comentou mineiramente na mesa do botequim, voz e olhos baixos, como quem não faz questão que é para não tirarem vantagem dele. Os outros, igualmente mineiros, não demonstraram o interesse que talvez tivessem. Quando o tempo andou é que a coisa se deu na oferta do meu pai. O primo desembarcou e já estava tudo acertado. Passou o dia dando voltas, testando os pneus nos paralelepípedos da cidade, reconhecendo o motor, abrindo e fechando a porta, metendo a cabeça dentro, passando a mão na lataria. Convencido, puxou a antena, ligou o radio e seguiu de volta para para São Paulo cumprindo os 80 quilômetros por hora sinalizados na estrada com a prudência que ele agora tinha ao volante. Foram ultrapassados pelos outros carros e mesmo por um grupo de ciclistas, nenhum outro fusca para comparar. Mergulharam na Marginal, sentiram a pressão da metrópole,
e estacionaram na garagem da casa, em Pinheiros, de onde o carro ainda não saiu e isso já faz dois meses.

No rádio

Posted on 20 agosto, 2018

– Foi aí que você resolveu participar da corrente espiritual da nossa catedral, irmão?
– Foi, pastor, tava tudo dando errado na minha vida. Minha mãe morreu, separei da esposa, minha sócia no salão não queria que eu trabalhasse feminino, só masculino nunca deu dinheiro, e foi quando eu sofri o acidente. A carreta de um caminhão carregado de areia abriu e me enterrou em frente do salão, os clientes tudo viram. Tou com dezoito pino no corpo.
– E agora sua vida deu uma reviravolta, irmão?
– Deu, pastor. Casei de novo, minha esposa, a mãe dela, foi quem me apresentaram para a Glória do Senhor na igreja, Deus abençoou minha sócia levou ela prá outro salão, ampliei o meu pro feminino e estética, deu até prá comprar um Golzinho, é velho, mas é meu. Em nome de Jesus não saio mais da corrente perimetral.
– Espiritual. Amém?

Dona Costura

Posted on 4 agosto, 2018

Dona Costura trabalha aqui?, fiz a piada com a plaquinha na entrada da loja. Trabalha, sim. Pera que eu vou chamar. Ô Costura, vem que tem cliente! Desfilando em traje típico, fita métrica pendurada no pescoço e óculos na ponta do nariz, almofada de alfinetes no pulso, chinelo com meia curta, ela surge de dentro da escuridão do que parece ser o depósito. A dona ou gerente do lugar, uma loira bem arrumada e algum exagero na maquiagem, sai de perto como se quisesse não ter nada a ver com o que se passa naquele canto onde se conserta roupa imperfeita. Nas vitrines dela, impecáveis modelos de gosto duvidoso. Abro a sacolinha de papel e retiro três camisolas compradas num comprimento para mulheres mais altas do que eu. Aquilo andava me incomodando um tanto pela estética mas, sobretudo, porque sendo longas, elas enroscam nas pernas e nem sobem nem descem, ficam feito canga molhada na volta da praia. A loira espiou com o rabo do olho. Dona Costura, nascida Izilda, me contou quando ganhamos intimidade, estendeu uma a uma sobre o balcão, elogiou e me pediu para vesti-las no provador. Fiquei constrangida de estar invadindo o espaço da clientela da loira embora não tivesse entrado ninguém desde que cheguei, exceto um homem com calças para fazer a barra. Saí do provador com a primeira camisola no corpo, decotada, alguma coisa transparente e abaixo do joelho. Fica na luz para a gente marcar direito, isso é coisa fina, olha aqui, mostrou o acabamento virando o tecido do avesso. Segurando meus braços, me posicionou como um dos manequins da loja, à vista de quem estivesse passando pela rua movimentada e com os alfinetes na boca, foi subindo a barra até onde considerava que uma moça de boas pernas, fez uma média, deveria usar. As pessoas vinham pela calçada e davam comigo de camisola de alcinha no vão entre os manequins com figurinos de inverno. Izilda agachada aos meus pés explicando porque tinha que fazer tudo ela mesma, as ajudantes eram preguiçosas e enjoadas, falavam mal das roupas das clientes, querendo ser o que não eram. A gente tem que ter orgulho do que faz, não acha? Quando soube que eu era jornalista, perguntou sem levantar os olhos se o país estava em crise mesmo. Ela achava que era só boato, que a vida das pessoas não tinha mudado nada. Pobre seguia pobre, rico seguia rico. Concordei. Levantou-se, eu de camisola encurtada e aproveitou a oportunidade para tirar a dúvida: Me diga a verdade, a Folha é comunista?