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escrever

Posted on 30 junho, 2019

Eu achava que a história estava escondida atrás do que via. Depois, entendi que na maior parte das vezes, o que se vê já é a historia inteira. O que toma tempo é contá-la sem omitir nenhum detalhe da imaginação. Segurar a fotografia e não soltá-la até descrever completamente o que se observou naquele momento. Mesmo o invisível. Sobretudo o incorpóreo. Passam-se dias, anos e ainda encontro alguma coisa que não estava lá na primeira vez. A roupa da mulher morta no varal. O desenho do louco amassado no lixo. O menino na missa com o tênis roubado do outro. Eu vi, mas porque me escapou o escondido, agora tão claro, não pude contá-lo. Um pecado do escritor. Perder a historia procurando o que não viu quando tudo acontece na frente dos seus olhos.

intimidade

Posted on 30 junho, 2019

Apertava a mão da gente com tanta força que, aos poucos, foram desistindo de cumprimentá-lo. Você podia ver de longe a expressão de desgosto e o corpo da pessoa se contorcendo com a mão presa na dele, as palmas gigantes. No começo, ninguém comentava porque acabava esquecendo. Era aquele impacto da dor e em seguida um abraço carinhoso e até o final da conversa ele ganhava o coração da vítima e o mal-estar ficava para trás.
Crianças, tentávamos adiar esse padecimento terrível, um empurrando o outro e torcendo para que talvez o gesto fosse enfraquecendo até chegar a nossa vez. Pior do que a dor era a vergonha. Em sistema de revezamento, enquanto um era torturado, os outros davam risada das caretas. Crescemos educados, enfrentando o protocolo, submetidos ao que nos parecia inevitável. Alguns homens, depois soubemos, tinham desenvolvido um sistema de abrir os dedos de tal forma que suavizava a pressão. Outros já iam para o cumprimento decididos a vencer o adversário e tascavam-lhe um aperto ainda mais forte, mas que, infelizmente, passava despercebido por ele. Por alguma razão, a maior parte dos homens dessa época e local, e aqui vai uma queixa pessoal, tinha a mão mole, descomprometida, que merecia e era estraçalhada dentro da dele.
A primeira a abrir o assunto foi minha mãe. Um dia, voltando de um aniversário, reclamou do cumprimento sacudindo a mão no ar e a gente riu com cumplicidade, como se finalmente fossemos autorizados a comentar o segredo bem guardado de um membro da família. Uma peruca ou a falta de banho.
Fizemos piada sobre a virilidade dele e o aspecto franzino da prima. Algum tempo depois, veio minha avó. Aos noventa, ninguém precisa fingir que é dor a dor que deveras sente. Quando anunciou que não aceitava mais o cumprimento do sobrinho, houve uma preocupação mineira, silenciosa e política, de que a atitude poderia criar um constrangimento na família. A sogra dele, irmã mais nova da minha avó, querendo contornar a situação e ter, ela também talvez, um alívio físico e nada mais, ponderou que alguém poderia explicar com jeitinho que, com a artrite, minha avó já não dava conta desse aperto de mão tão enfático. Com sorte, a desculpa valeria para todos os demais, mesmo os ainda sem artrite. A conversa não andou. Era um homem bom e se ofenderia. Mineiro ofendido nunca esquece e vira estátua de sal. Ele, que fez a pesquisa para a árvore genealógica da família, que organizou a excursão à cidade natal do nosso tetravô e, sobretudo que, por uma fatalidade, era afilhado dela. Apertava e beijava a sua mão. Não era uma possibilidade.
Minha avó escolhia destemidamente as palavras para dizer o que pensava, mas não disse mais nada. Achou a saída quando passou a oferecer o ombro e o rosto ao mesmo tempo, confundindo-o um pouco no início e safando-se definitivamente do incômodo. Fomos observando o sucesso daquele jogo de corpo e, como ela, passamos a esticar o pescoço de longe e beijá-lo antes de qualquer chance do uso das mãos. Os homens, aproveitando a deixa, partindo direto para o abraço. Uma revolução nos costumes. Parece que o primo não achou ruim. E a prima até engordou um pouquinho.

Segundo tempo

Posted on 16 junho, 2019

No sonho, uma infinidade de troncos desce as corredeiras de um rio. Alguns se enroscam em plantas verdíssimas nas margens agitando o corpo por um momento, mas a força da água os devolve para junto dos outros que, alinhados em uma jangada longuíssima e desamarrada, seguem em direção ao precipício que eu não vi, mas posso jurar que havia. Cumprem silenciosos e condescendentes o seu destino, são todos iguais, parecidos, não há o que esperar de nenhum deles. Mexo a cabeça, o travesseiro vai para o chão. Sei que é iminente o meu mergulho sem volta, sozinha, na companhia de tanta gente. Sou um tronco pendurado na beirada, metade no ar. Gosto do que vejo quando olho para trás, do que ficou para trás, o rabo do tronco apoiado na terra e mesmo do que vejo à frente, voando, sem chão. Por que não posso ficar assim é a pergunta que levanta comigo pela manhã, ainda atormentada com a terrível visão dos troncos levados pela água. Sinto raiva dessa subserviência à realidade, dessa obediência aos desmandos do tempo. Do alto, de onde assisto a cena, dentro e fora dela, considero as alternativas. O mais provável e o que já se dá, será entregar-me à lei natural, deitar-me nesse grande tapete coletivo e me deixar levar para onde, afinal, vamos todos terminar. Há uma enorme pilha de troncos úmidos, pingando, recém saídos da água, muitos outros chegando e aos poucos transformando-se em corpos velhos, sem rosto, sem referencia, sem individualidade, sem aconchego ou privacidade. Estou angustiada, aperto o maxilar a ponto de doer, e me ocorre fugir pela inventividade, pela ficção, pela negação, pela loucura, pelo sonho no sonho, tentando me convencer de que o rio me levará para o mar aberto e lá, na imensidão conhecida, boiarei feliz sob o sol até que as ondas me deixem na praia que escolherei. Mas, então, essa possibilidade vai depender da minha capacidade de defesa e não saberei mais quem sou na hora do julgamento. E minha mãe, na pilha de troncos, não intercederá por mim.