Estou passando pelos agentes de segurança no aeroporto de Tel Aviv. A jovem soldado aponta a tatuagem no meu pulso e pergunta, já sabendo, o que a palavra Alegria escrita num dialeto árabe significa e eu respondo em inglês, que é quando ela fica mais bonita, Joy.
É uma palavra curta, banal, sem nenhuma sofisticação intelectual ou interpretação filosófica, escolhida pela minha filha que a tem tatuada também, pelo seu sentido e pela forma com que as linhas curvas são lindamente desenhadas. Havíamos nos mudado para o Rio e achamos que era um jeito bacana de celebrar o momento.
A soldado quis saber o nome da minha filha como se fosse um truque para me pegar no pulo fazendo alguma coisa errada. Não senti medo nem constrangimento. Contei a ela que o tatuador carioca nos sugeriu estender o braço no balcão do Habib’s que o pedido já estava anotado ali: uma esfiha e uma Coca Zero. Sorriu apertando os olhinhos azuis.
Lá dentro, quando o alarme soou e levantei o cabelo para a revista, apareceu na nuca outra tatuagem, essa mais recente, homenageando minha mãe. É o desenho de um quadrado pequeno. Novamente, a funcionária perguntou e eu poderia ter respondido qualquer coisa, que gosto dessa figura geométrica, mais do que do círculo ou do triângulo. Mas me deu uma tristeza tão grande de pensar como minha mãe estaria achando chique aquele rigor todo expresso em outra língua, ela que amava as palavras, que eu expliquei caprichado
como eu e minhas irmãs tínhamos reproduzido uma malcriação. Que quando uma de nós não entendia imediatamente o que estava comunicando, ela fazia um ar crítico e desenhava com os dedos indicadores um quadrado no ar ou sobre a mesa sugerindo que fossemos menos limitadas. Era um momento tenso para a pessoa enquadrada e divertido para a platéia. Chorei. A policial tentou ser solidária e até atribuir mais significados para o nosso gesto, mas eu só queria ir para casa com a minha Alegria e a minha saudade e a minha vida que bastaria ter sentido para mim.