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Pesadelo

Posted on 27 julho, 2020

Os dentes soltos da gengiva, posso removê-los com a unha. E é o que faço. Vou metendo a unha e arrancando um a um. Então sinto medo do prazer que é como o de roer as unhas ou de coçar um machucado. E penso, tenho que anotar esse sonho e anoto. Mas como é parte do sonho, não anoto de verdade e, no dia seguinte, já esqueci. Agora veio a canjicada que minha irmã fez e recupero o assunto dos dentes. Preciso contar para a dentista e para a terapeuta. Há interpretações desse sonho. Posso estar me sentindo insegura, frágil. Pior, há um molar com problemas reais.

Uma mala

Posted on 27 julho, 2020

“Minha mala vinha deslizando lentamente pela esteira de desembarque. Era uma mala de couro antiga, do fim da década de 60, eu a tinha encontrado entre as coisas dos meus pais e me apropriei dela porque achei que se adequava ao estilo despojado que adotara naquela fase.” Esta cena de um livro de Karl Ove que estou relendo serve perfeitamente para começar o episódio que aconteceu quando eu morava em Nova York e fui, pela primeira e ultima vez, à Brasília prestar um concurso. Não sei em que momento a formação mineira pesou com força e me levou a considerar um emprego público. Coisa da minha mãe. Deve ter me botado medo do futuro incerto “no estrangeiro”. Não passei. Fiquei aliviada porque gostava de ser jornalista e não tinha nenhum plano de voltar a morar no Brasil naquele momento. No vôo para Brasília, conheci um jovem chef de cozinha francês que estava a caminho de um estágio no Club Med de Itaparica. Dessas coisas que a classe econômica raramente proporciona, o encontro aconteceu cheio de boas surpresas. Ele era lindinho, falava inglês com o sotaque francês necessário e era curiosíssimo sobre o país e a culinária brasileira. Vinha de uma experiência sofisticada trabalhando num hotel de luxo em St Barth, encantado com a cor da água e o sabor dos frutos do mar de lá. Expliquei que a Bahia era outra conversa, uma mais autentica e radical, e ele assentiu entusiasmado, estava pronto para depenar arara e assar macaco. Perguntava sobre tudo sem nenhuma vergonha de parecer ignorante e eu respondia como se tivesse sido criada no Xingu. Brasília era a escala dele e meu ponto final e estávamos naquele charme todo, trocando telefones junto à esteira, quando me dei conta da mala que tinha separado para a viagem e congelei. A verdade é que, diferente da mala do Karl Ove, a minha era de um material que me parecia papelão, amarela, caindo aos pedaços, vintage, se quisermos parecer chiques. Minha mãe tinha a frasqueira fazendo jogo. Estava cheia de apostilas para o concurso e eu planejava abandoná-la no hotel e voltar com as poucas roupas que levei numa mochila. Como não tivesse cadeado e ficasse abrindo o bico o tempo todo, deixei o insistente rapaz do aeroporto em Nova York embalar com aquele assustador plástico verde. Levando tudo isso em conta e o príncipe Louis Vuitton que eu tinha ao meu lado, decidi disfarçar e fingir que a mala não era minha. Ficamos ali um tempão, aquele casulo verde rodando sem parar, ele com horário apertado para o outro vôo. Esperei que desistisse e sumisse na curva do saguão para rapidamente laçar a mala e meter-me num taxi. Nada mais saboroso entre nós aconteceu, mas, tempos depois, em Nova York, ele à frente da cozinha de um elegante restaurante francês, desses que exigem gravata e paletó, convidou-me para conhecer seu local de trabalho. Convoquei uma amiga e adentramos a Festa de Babette. A mais longa, surpreendente e refinada refeição que fiz na vida. Nem sei quantas entradas e pratos, ante-pratos, entre-pratos e pós-pratos o colega garçon nos trouxe com piscadelas cúmplices. Tivemos medo da conta que, afinal, não pagamos. Depois, embriagadas de diferentes cores de vinhos, fomos chamadas para visitar a cozinha, ele nos esperando sorridente, tão charmoso de avental e chapéu de cozinheiro, falando num português ininteligível, exibindo-se para os colegas. Ganhamos um champanhe e uma caixa com mini macarons cada. Tudo isso, estou segura, porque ele nunca viu a mala.

O velho no hospital

Posted on 16 julho, 2020

No hospital, pela porta entreaberta de um quarto, vejo um senhor muito idoso, absurdamente magro, ligado à máquina, dormindo de boca aberta como se morto. Penso, triste, que ninguém deveria estender a vida além do limite da dignidade. Que a família talvez não tenha coragem de permitir que ele termine seus dias em casa no tempo que a natureza decidir. E que eu não gostaria de ser submetida a isso, se pudesse escolher. Hoje, a fresta da porta mostra o mesmo senhor, agora sentado ereto, de óculos, lendo o jornal. Fiquei com vergonha de tê-lo matado ontem.

A historia escondida

Posted on 16 julho, 2020

Eu achava que a história estava escondida atrás do que via. Depois, entendi que na maior parte das vezes, o que se vê já é a historia inteira. O que toma tempo é contá-la sem omitir nenhum detalhe da imaginação. Segurar a fotografia e não soltá-la até descrever completamente o que se observou naquele momento. Mesmo o invisível. Sobretudo o incorpóreo. Passam-se dias, anos e ainda encontro alguma coisa que não estava lá na primeira vez. A roupa da mulher morta no varal. O desenho do louco amassado no lixo. O menino na missa com o tênis roubado do outro. Eu vi, mas porque me escapou o escondido, agora tão claro, não pude contá-lo. Um pecado do escritor. Perder a historia procurando o que não viu quando tudo acontece na frente dos seus olhos.

O caminho se faz ao caminhar

Posted on 16 julho, 2020

A senhorinha ao meu lado, perfume, batom, brincos, anéis, colar e pulseiras, saiu direto do Sírio Libanês para o aeroporto rumo a Lisboa, onde mora o filho que despachou a ordem de resgate. “Ele não queria que eu ficasse nem mais um minuto no hospital,” anunciou orgulhosa. O comissário de bordo ergueu as sobrancelhas. “O médico acatou o pedido e me deu alta.” A neta confirmando. “Estou congelando nesse ar-condicionado.” Segurou minha mão com a mãozinha fria para comprovar o que dizia. O comissário correu e voltou com uma invejável bolsinha de água quente forrada de feltro. Ela ajeitou-se na poltrona, colocou os óculos e passou a noite inteira assistindo o vídeo da companhia aérea, aquele que mostra o avião, o que quer que estejamos sobrevoando naquele momento, mapas, a altitude, a velocidade. “Meus filhos insistem para que eu escolha um filme, há tantos bons, eles dizem, mas eu gosto de acompanhar o trajeto que é para não me distrair da viagem.”

Inveja

Posted on 16 julho, 2020

Minha mãe preparou uma palestra para educadores e já ia longe na apresentação quando se deu conta de que não concordava com o que estava dizendo. Respirou fundo e anunciou para uma platéia estupefata que iria recomeçar porque “pensando bem, a idéia era outra.”

Uma janela

Posted on 16 julho, 2020

Uma janela, muito antes da pandemia. 18/6/2005

A tia está bem, comunicou minha mãe voltando da visita. Aos 98 anos, com câncer avançado, a tia passa o dia na cama. No quarto iluminado pelo janelão com batentes azuis, o sol riscando o piso, conversou e riu ao lado de uma das netas, lembrando-se de historias ingênuas da família. Despediram-se e foi só. Um dia, muitos anos antes, a tia havia me causado impressão dizendo que não desejaria jamais mudar da casa onde morava com a filha e o genro desde que ficara viúva, ainda jovem. Fui até a janela e observei o muro com telhas como um babado na borda, o mamoeiro crescido, o varal com pernas desajeitadas de bambu e o galpão lá no fundo com o fogão à lenha de onde, pequenos, tirávamos pedaços de carvão para riscar a amarelinha no cimento mal conservado do quintal. Foi como se me apontasse o passado, o presente e o futuro de uma vez só. Disse mais. Que era feliz porque podia olhar todos os dias por aquela janela. Eu vi o que ela via sem poder dizer o mesmo. Meus planos eram de paisagens diferentes e quartos virados para dentro, com romance, meia luz e camas gigantes. Ela dormia em lençóis de linho com as iniciais do enxoval bordadas, uma amarração para a vida inteira. No criado mudo, havia um terço com perfume de rosas sobre a toalha de crochê e toda noite na hora de dizer boa noite, a gente a encontrava já de camisola, com o terço nas mãos, rezando baixinho e achando tão bom estar ali! Quando minha mãe veio contando que a tia estava bem, eu sabia exatamente o que ela estava dizendo.

Não me falem de problemas

Posted on 15 julho, 2020

Sou Marina de pai e mãe. A avó Marina, de São Paulo e não a avó Marina de Guaxupé, era casada com um médico apaixonado por ela. Dizia-se cardíaca e carregava o atestado do meu avô embora, que se saiba, nunca tivesse sofrido nada do coração e nem tenha sido essa a sua causa mortis. Quando era contrariada nas suas vontades, fingia desmaiar em decorrência da doença. Criança, presenciei quando ela disse que tinha gostado demais do novo gato siamês da filha e que queria levar o bichano para casa. Minha tia recusou-se a atender o desejo e a avó jogou-se no chão para só acordar nos braços cúmplices do meu avô. Tomava café na cama diariamente levado por ele. Esse e mais tantos mimos invejáveis. Muitas vezes comiam de mãos dadas. Ele era canhoto, o que facilitava o gesto romântico. Mais tarde, anunciou que devido à sua condição de cardíaca não deveria receber más notícias. E dali para a frente, estávamos proibidos de comentar os fatos negativos da família perto dela, mortes, divórcios, doenças, perdas de emprego, desavenças, qualquer questão que a desestabilizasse. “Não me falem de problemas” era um mantra que virou piada com o tempo. Primeira neta, afilhada e confidente dela, eu acreditava que se fechasse os olhos e ouvidos para a realidade, não sofreria, não morreria do coração. E assim segui, com menos sucesso do que ela, já que eu não tinha um atestado que evitasse o contato com fatos dolorosos, fazendo-me de boba quando o indesejado apontava na minha direção. Fui afinando um método de defesa aparentemente perfeito, uma capa à prova de dor me cobrindo, decisões tomadas à revelia das suas consequências, as consequências negadas com convicção, uma mulher bomba saltitando pela vida. Adolescente, acordei um dia cega, sensível ao menor foco de luz, personagem de Woody Allen. Fui levada ao neurologista que ouviu da minha mãe que eu não tinha passado por nenhum trauma emocional recente. Deitada na salinha ao lado, pensei em dizer para eles e para mim mesma que estava em carne viva com o fim de um namoro intenso. Uma decisão que tomei com medo de me afogar de tanto amor e que agora me cegava de tristeza. Mas não o fiz nem ali nem no caminho para casa, sentada no carro ao lado da minha mãe com os enormes óculos escuros dela. O episódio ficou escondido entre outros para ser reaberto só muitos anos depois, quando a mulher bomba explodiu ferindo-se mortalmente e de raspão aos que a cercavam. Doeu. Morri eu, pouco depois, a avó também. Hoje jogamos Buraco como nos velhos tempos, ela escondendo cartas, meu avô fazendo que não vê, eu e minha irmã divertidas. Pisco maliciosa para a avó. Uma vida inteira para entender o jogo.