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Pé de guerra

Posted on 30 setembro, 2020

Do quarto, com a porta entreaberta para o livre trânsito dos gatos, ouço os ganidos do aspirador lutando com todas as forças nas mãos da senhora que faz a limpeza. Agora, vencidas pela necessidade, ela de sair de casa e eu de contar com seus valorosos serviços, temos esse encontro uma vez por semana. Vem de máscara no Uber de um rapaz onde ela faz limpeza também e ficamos nos comunicando de longe, aos berros, as duas insatisfeitas com a situação.
Tenho pena dele, do aspirador. É novo, daquelas compras de impulso no início da pandemia quando procurávamos prazer nas coisas mais idiotas. Tão bonito e elegante, custou caro, com garantia de pura satisfação. Mas ela não gosta, implica, diz que não tem potência, que não dá conta do recado. Por último, veio me perguntar se por engano não joguei fora uma pecinha, parte do filtro, que ela tinha lavado e deixado para secar no tanque. Sem a peça, ele não vale de nada mesmo, só tem belezura. Não joguei. Talvez um dos gatos tenha escondido de propósito. Eles têm horror ao barulho. Pois eu vou atrás que essa guerra não perco. É um aspirador bom e tem belezura, sim, mas não acho que isso tire o seu valor. Talvez seja mal compreendido. Nunca lemos o manual, deve ter qualidades não exploradas, segredos mágicos, delicadezas como uma ponta especial que chupa o pó dos fios das luminárias ou um pincel que limpa o fundo das tomadas. Olha quanto encaixe que a gente não usa! Ela não quer saber. Não tem tempo a perder com falsas expectativas. Aumenta o volume da música e canta pedindo forças ao Senhor. Volto para o quarto, respiro fundo e anuncio aos gritos que vou recuperar o antigo que passei para a minha filha e que nunca ouviu malcriação. Sem desligar o aspirador nem abaixar o volume do rádio, ela concorda. Da próxima vez que der vontade de gastar dinheiro, a senhora me avisa.

O que pensam de mim

Posted on 5 setembro, 2020

“Sasha nega boato de que nasceu sem c* e fala países que quer visitar.” A chamada da matéria surge no meu celular sem pedir licença, já achando que está falando com o interlocutor certo. Gostaria muito de saber como os algoritmos concluíram que eu teria interesse nos detalhes físicos do bebê Sasha ou nas próximas viagens que a filha da Xuxa fará. Não me ofendo com propaganda de aumentador de pênis ou de um abridor de ostras, coisas que dificilmente vou consumir, mas que de alguma forma fazem parte do meu imaginário. Fico pensando que a sagrada leitura do nosso inconsciente, expressa a muito custo através de manifestações artísticas, por exemplo, em algum momento vai ser auto censurada. Se atentos a ela, vai nos inibir. O que a internet pensa de mim?
Há muitos anos, um bonitão de esquerda afim de se exibir, abriu a camisa e mostrou a enorme cicatriz no ombro descrevendo o acidente de moto sofrido numa viagem pelo Peru, a trilha de Che. Numa coincidência infeliz, para uma amiga comum, ele ostentou a cicatriz como marca das sessões de tortura que sofreu nos porões da ditadura. Fiquei ofendida. Então ela parecia mais madura e radical do que eu? Que parte minha o bonitão viu e entendeu que faria mais sucesso sendo romântico e cinematográfico? Bem, ele entendeu certo, gostei mais da imagem que ele me vendeu do que a dela. A minha prometia futuro, a dela era só passado.
Para além da espionagem da internet, somos uma coleção de sinais e reações e expressões, somos o que manifestamos mesmo em silencio. Mas é melhor não estar alerta para isso o tempo todo. A consciência muitas vezes é vaidosa e controladora, quer a fotografia perfeita. O espontâneo é tão mais raro e prazeroso! O que a internet terá coletado de dados sobre mim já não importa. Quero emprestada a ingenuidade dos artistas verdadeiros. E pensando bem, escrevendo sobre o c* da Sasha, acabei de dar motivos para receber outras tantas publicações sobre assuntos escatológicos correlatos.

 

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Milagre

Posted on 3 setembro, 2020

O amigo conta que estava na feirinha e por milagre encontrou um livro que queria. Aquela pequena grande alegria, alçada à condição de milagre, me encheu de esperança. Como se o fato dele ficar feliz naquele momento, e depois de novo quando me contava, possibilitasse a qualquer um que o encantamento momentâneo com quase nada se transformasse em algo extraordinário. O menino e a formiga carregando a folha. A tia e o ponto do tricô que deu certo. Meu pai e o peixe na vara. É estender o momento gratificante. Segurar o achado no ar. Veja que a coisa mais besta quando observada pelo poeta é poema. E para nós outros, às vezes, é milagre.