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O tempo

Posted on 24 maio, 2021

Para envelhecer basta ficar bem quietinho e deixar o tempo passar à vontade. Não vou facilitar. Eu luto, esperneio, faço barulho, dificulto o seu movimento contínuo. Fico de plantão na porta, atenta. Registro. Meu referencial é outro, não vejo os mesmos ponteiros e, no entanto, sei, a medida é universal.
Outro dia, distraída, fui ler. Em “As inseparáveis”, Simone de Beauvoir descreve o amor intenso que viveu durante a infância e juventude com uma amiga que morreu muito cedo. De certa forma, Beauvoir atribui a morte da amiga à tentativa de ser ela mesma, de ter uma personalidade solar e única numa sociedade onde isso não era possível. Como se isso a tivesse destruído fatalmente. Não viver o que nos cabe nas nossas individualidades e certezas é uma forma de adoecer. É importante inconformar-se.
Quando coloquei o livro de lado, me dei conta de que algumas horas haviam se passado. Anotei esse tempo para descontar mais tarde. Quando me deitar, pensei, ficarei de olhos bem abertos, prestando atenção a tudo à minha volta e mais importante, deixarei bem claro que, ainda que não pareça, ainda que nada aconteça, que nenhum evento ocorra, a referencia que nos distancia e aproxima existe. O tempo estará passando e eu saberei. Aqui não!

A mamma

Posted on 19 abril, 2021

Para a minha ex-sogra, que faleceu outro dia, deixando a gente com um buraco no estômago.
Acostumada que fui pelo avesso disso, com mãe mineira, intelectual, pouco afeita à cozinha, demorei a entender o carinho da mulher simples, de afeto desmedido pela família, amor oferecido sempre na ponta do garfo. O cheiro da casa dela era de molho de tomate fresco, alho, azeite e manjericão. Vinha nas mais variadas formas, na lasanha, no bife à parmegiana e, para mim, especialmente, na carne de panela. Era sempre perfeito e, no entanto, ela sofria. Sofria com tudo. Sofria na escolha das frutas e legumes da feira, horas em cada barraca examinando e comentando as qualidades e defeitos com o feirante. Sofria no açougue, em cada decisão que tomava com rigor, nunca era o que poderia ser. Sofria entre insegura e dona da cozinha, no fazer, na regra imexível apesar de tantos anos na lida. Para isso, só a pinga com limão que compartilhamos ali muitas vezes, pequenas, poucas liberdades femininas conquistadas. Sofria especialmente quando punha aquela maravilha na mesa. Explicava repetidamente a falta de tempo, a distração, os ingredientes longe do ideal. Pedia desculpas enquanto nos fartávamos com o seu afeto saboroso.
O filho, único homem, tinha regalias de príncipe porque ela achava que ele também, por qualquer razão, sofria. Durante os muitos anos em que fomos casados, ela não confiava, com razão, nem em mim nem na cozinheira de casa. E mandava todos os dias, às 18h30 pontualmente, o jantar do filho. Se o prato pedia queijo ralado, quase sempre pedia, vinha o queijo à parte. Italiano no Brasil não come sem pão. Então chegava o pão junto. No começo, enfezei. Depois, eu e a empregada ficamos muito agradecidas por não termos que nos preocupar com os enjoamentos diários daquele filho mal ou bem acostumado. Mas a gente passava vontade. Sobretudo as crianças, proibidas de tocar naquela comida saborosa. Causei alvoroço entre a mulherada emancipada dos encontros profissionais que frequentei mundo afora quando contava essa prática em casa.
Entre as inúmeras demonstrações de carinho comigo e com as minhas filhas, que ela acolhia como só uma nona sabe acolher, havia a de nos esperar aos domingos, avental e batom, para a melhor e mais farta refeição das nossas vidas. Saíamos dali nos sentindo muito amadas. Mesmo eu, que era só a mulher do filho dela. Uma vez, eu trouxe café da fazenda:
-Foi meu filho?
-Não, eu sei que senhora gosta, então…
-Meu filho tem mania, já falei que não precisa.
-Ele nem foi conosco! É presente meu para a senhora.
-Ai, esse meu filho!

Miopia

Posted on 10 abril, 2021

Perdi o último par de óculos. O terceiro. Num eu pisei e destruí as suas hastes. O outro está tão torto no rosto que a terapeuta me obrigou a tirá-lo durante a sessão para não distrair a atenção dela. Não vou mandar fazer novos agora. Tenho medo de ficar me esfregando em armações contaminadas. Já procurei em toda parte, nos lugares mais improváveis, sempre achei tão triste a pessoa que não enxerga, tateando atrás dos óculos! Não sei exatamente quantos graus e que tipo de deficiência tenho. Não são números altos, tenho alguma dificuldade para ler e ver as coisas com boa definição de longe. Ainda assim, como dos demais confortos, fiquei dependente deles. Quando entrevistei Caetano Veloso numa homenagem que fizeram no seu aniversário de 50 anos, no Metropolitan Museum, em Nova York, ele falou sobre a falência do corpo e deu o exemplo: A gente se acostuma com tudo, acaba achando bom o que nos tira o mal-estar. Sempre tive horror à idéia de usar óculos. Pois hoje, quando me sento na poltrona, saco os óculos da caixinha, ponho e leio, sinto um prazer enorme!
Eu fui feliz durante o curto espaço de tempo em que fiquei sem enxergar direito. Passada a insegurança inicial, percebi que o mundo melhora muito quando está fora de foco. Não vejo a sujeira da casa, nem as minhas marcas no rosto, as flores murchas no vaso, as unhas grandes dos gatos, as más notícias no computador. A realidade é implacável, não tem negociação. Por uns instantes, tirei vantagem de um mundo ideal. Abri um livro do Borges que não exigia leitura, só fotos e desenhos, ele retratado em imagens quando já não enxergava mais. Passeei pela casa achando as coisas bonitas nas estantes. A grosso modo, são. De outra forma, vejo rabinhos e pescoços de bichos quebrados, livros fora do lugar, fios aparecendo, objetos descascados, perdendo a cor. Nem troquei a roupa de cama fazendo que estava limpa. Comi a banana de casca escura. Agora, meio a contragosto, encontrei os óculos e só por isso estou escrevendo. Descrevendo as pequenas imperfeições à minha volta. Na minha pele, dentro de mim. As doenças e a feiúra do mal. Observando de perto o todo errado no mundo. Nunca achei que miopia fosse opcional. Talvez eu perca os óculos novamente.
Beatriz Ribeiro de Moraes, Matthew Shirts e outras 177 pessoas
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Acupuntura

Posted on 26 março, 2021

Meu primeiro contato com a técnica foi em Nova York, nos anos 90, através de um médico chinês frequentado por jornalistas, escritores, poetas e artistas de um modo geral. Falaram dele num jantar. Eu não poderia ficar de fora. Inventei um pretexto e fui. Apesar do consultório estar localizado num sofisticado endereço no Upper West Side, o preço das sessões era acessível e, diferentemente do meu dentista que odiava essa turma, ele lidava bem com a dificuldade dessa clientela de cumprir horários e respeitar as rigorosas regras da ciência milenar. Cada vez que você ia lá era como se fosse a primeira vez.
Queixei-me da alergia ao pólen que chegou junto com a primavera americana e me deixou, como à tanta gente, com muito mal-estar. Ele inseriu de leve as suas famosas agulhas de ouro, esterilizadas numa caixinha de metal cheia de álcool e ligada à tomada para aquecer. Meu avô, médico, tinha uma igual. O cheiro forte me lembrou o das marmitas que os operários das construções em São Paulo esquentavam em fogareiros rústicos. Tentei comentar isso e outros num artifício para disfarçar o medo e a tensão, mas ele fez um gesto para que eu me calasse e o repetiu em outras ocasiões quando não fiquei em silêncio como manda o ritual. Nossa comunicação foi praticamente gestual, exceto por duas ou três expressões monossilábicas que ele repetia a cada sessão: Fi(r)st time acupunctu(r)e? Falou sem pronunciar o erre. Pain? Relaaaaaax. Ou melhor, Welaaaaaax.
Depois do que me pareceram longas horas de relaxamento, espetada como um boneco de vodu sobre uma maca numa salinha à meia luz, ele me entregou uma receita de medicamentos fitoterápicos escrita em chinês que deveriam ser adquiridos num fornecedor específico no Chinatown. Sem muito espaço para questionamentos, saí dali direto para o metrô com o papelzinho hieroglifado na mão e atravessei Manhattan em direção ao desconhecido. Achei que as pessoas no trem me encaravam de uma forma que não é comum nem recomendável em Nova York, olho no olho. Passei por patos, cobras e lagartos pendurados e entrei na pequenina farmácia alguns degraus abaixo da linha da calçada. Estendi a receita para o primeiro oriental que vi e que não era funcionário, devia ser um morador do bairro que achou a maior graça e ficou olhando para mim e para um outro e rindo. Não era tão engraçado assim e me aborreceu um pouco aquele exagero, mas eu estava em território duplamente estrangeiro, me fiz de boba e sorri de volta. Fiz a compra muda e saí calada. Munida das ervas embaladas em pequeninos envelopes de papel de seda, tomei o metrô e, novamente, tive a estranha sensação de que não me tiravam os olhos durante o percurso. “Essa mania de perseguição ainda vai acabar comigo”, pensei. Só em casa, quando fui tomar banho e me olhei no espelho, entendi porque tanta gente me encarando no trem, tanta risada na farmácia. Algumas raras vezes, soube mais tarde, a agulha da acupuntura pega uma veiazinha e sangra. No meu caso, mais raro ainda, várias veiazinhas sangraram e, mesmo com os procedimentos que ele fez na hora para estancar, finos riscos vermelhos saíram da minha cabeça, atravessaram as têmporas, escorregaram pelo pescoço e secaram sobre a pele tatuando um desenho assustador como o de uma daquelas máscaras de Halloween. Óbvio que eu nunca contei para a turma em Nova York que eu não sou boba nem nada. Como dizia minha mãe, e o que iriam pensar de mim?

Viúva de Aluguel

Posted on 9 março, 2021

Veio recomendado pela filha, que trabalhava na empresa de arquitetura. Desempregado, durante um tempo foi motorista de Uber, depois começou a fazer pequenos consertos aqui e ali e finalmente conquistou o status de Marido de Aluguel, mandou fazer cartão e assumiu a função. Simpático, falante, contou dos descaminhos profissionais enquanto media e martelava os quadros na minha parede. Agachou-se e só levantou com a tomada da luminária funcionando. Falou da filha se formando: “Eu também dou para arquiteto”. Colou um vaso quebrado sem tirar a planta de dentro, vedou a pia com silicone. O gato atravessou a sala e ele fez carinho. Tinha gatos também, mas morando em casa, os dele tinham muito mais liberdade e não destruíam os sofás. Quis cobrar pouco para deixar a porta aberta, ali na frente, teríamos outras oportunidades. Achei melhor pagar o justo, pela gasolina, ele morava longe, pelo tempo, foram horas, e pelo trabalho impecável. Outro dia, mandei uma mensagem perguntando se ele poderia voltar e fiquei sabendo que tinha morrido de Covid. Me deixou aqui perdida, zanzando pela casa, toda hora reconhecendo a mão dele numa coisa ou noutra, um prego na prateleira bamba, a gravura esticada com fita dupla face, o varal destravado. Era alugado, mas a gente achou que fosse para sempre.

O Bruno

Posted on 8 fevereiro, 2021

Ontem, morreu o Bruno e eu fiquei como a viúva da novela, a que foi sem nunca ter sido.
Eu era uma menina tonta. Ele, um homem maduro e, aos meus olhos, poderoso. Me deu seu numero e eu liguei para falar de trabalho. Uma mulher atendeu e perguntou se eu queria falar com o Bruno pai ou o filho. Dada a nossa diferença de idade, assumi que ele era o pai, mas quem veio ao telefone foi um senhor de mais de setenta anos, o verdadeiro Bruno pai, com quem ele vivia.
Bruno Pardini Junior era solteiro, bem sucedido no mercado publicitário, tinha um carro conversível e um cachorro lindo. Era extremamente engraçado e inteligente. Punha os melhores apelidos nas pessoas, desses que a gente acha que é elogio até perceber que é gozação. Não me arrumou um emprego, fiz isso sozinha, mas se encantou por mim e me supervisionava de longe. Todo mundo sabia desse amor, ele não escondia. Eu tinha um misto de vaidade com vergonha. E era encantada com ele também, um homem charmoso e culto, que sabia um pouco de tudo e muito de algumas coisas. Eu lia, assistia, experimentava tudo que ele recomendava. E conversávamos horas sobre os temas que nos interessavam, sobretudo cinema e literatura. Uma vez, papeando no parque, ele pediu para o vendedor de sorvete estacionar o carrinho ao lado e tomamos um número absurdo de picolés, um atrás do outro. Enquanto teve assunto, teve sorvete.
Me cortejava com gestos exagerados como deixar de presente um Jeep cheio de flores na porta da minha casa. Mande esse senhor levar isso embora, disse meu pai. Numa Páscoa, veio com um ovo tão grande e pesado que precisávamos de uma marretinha para quebrar os pedaços na hora de comer. E me deu um cocker spaniel preto e branco, alegre e querido, que batizamos de Bruno. Italianíssimo, gostava de ópera e de chorar na ópera. De vinho e de pasta. Tinha uma mania que eu odiava que era a de juntar as mesas no restaurante toda vez que encontrava um dos seus inúmeros amigos.
Foram anos de amizade, carinho e cumplicidade. Amadurecemos os dois naquela travessia misteriosa. Ele acompanhou meus namoros, tinha ciúme, sofria, mas sabia que a nossa era uma paixão impossível. Acho até que inventada, apesar de real.
Quando me casei, ele mandou uma coroa de flores com uma mensagem de pêsames. Mas era só para marcar presença, um ato de encerramento do drama porque, na verdade, estava muito bem sozinho. Me confessou uma vez que eu era a sua desculpa para ficar solteiro.
Gisela Heizenreder Cury, Laura Vargas e outras 283 pessoas
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A casa e a rua

Posted on 3 fevereiro, 2021

Sentado na esquina, o jovem morador de rua, barbudo e descabelado, dispara impropérios desconexos e raivosos para o alto. Outro, mais velho, inchado de bebida, vem pela rua carregando um saco de lixo preto no ombro, fumando. Aproxima-se do cabeludo e oferece a minúscula bituca do cigarro. Com a mão imunda, o outro aceita e mete o quase nada na boca. Solta fumaça. O mais velho diz que tem um presente para ele. Diz isso e repete mais de uma vez enquanto mexe no bolso e dali tira o que parece ser um chaveiro já com chaves penduradas. O mais novo examina o objeto inútil como um índio diante de um relógio, com curiosidade e ceticismo. Estende a mão devolvendo a bituca. O mais velho faz um carinho distraído na cabeça dele, o olhar perdido. O sinal verde arrasta o táxi e os mendigos até aqui, mas eu já não volto para casa. Abro a porta e entro no mundo. Sem a proteção do isolamento, sem protocolo, sem máscara, sem paredes. Estou inteira com eles, passando o cigarro, fazendo cafuné, trocando presente achado por aí. Estou suja, descabelada, gritando xingamentos de raiva. Enlouquecendo. Salvando-me com gestos de afeto, de cumplicidade, de acolhimento. Estou desprotegida e desalmada. Eu sou o tempo que passa e distancia a casa da rua. Sou o táxi que segue quando o sinal autoriza. E o homem sujo que fica ali até acabar.

Monologando

Posted on 22 janeiro, 2021

Cutucando as plantas e falando sozinha. Comemorando um broto surgindo, sacando fora as folhas secas, avaliando a muda que veio da fazenda, com pena de tê-la tirado da terra boa e larga. Uma conversa comigo mesma de carinho e reclamação, organizando a tarefa em voz alta, sabendo-me acompanhada. Pensei no Geraldo Vandré, que encontrei há muitos anos quando fui ao Campo de Marte fazer uma matéria sobre a escola de pilotagem. Alguém me apontou o Vandré lá no fundo, cabeça branca, macacão de mecânico, metade do corpo enterrado num avião pequeno, cutucando o motor. “Ele vive aqui, fica mexendo em motores velhos e falando sozinho. A gente deixa porque tem respeito pela história dele.” Cheguei perto, mas não tive coragem de me apresentar. Para não dizer que não falei das flores era o chavão que ele não precisava ouvir e do qual talvez até fugisse. Nem que quisesse poderia afastá-lo daquele mundo onde me pareceu absolutamente à vontade. Conversando com os motores como eu com as plantas. Deixa quieto.

Pedaços da gente

Posted on 11 janeiro, 2021

Esparramadas sobre a colcha de retalhos, irmãs e primas, competíamos para ver quem se lembrava de onde vinha cada tecido. Recontávamos a nossa história ali entre o algodão dos shorts e blusinhas, o crepe dos vestidos longos, a flanela dos pijamas, de vez em quando, um quadrado de lã de algum casaco. Ríamos pensando nos modelos, estampas e cores de um mundo em que quase todas as roupas eram escolhidas nas revistas e reproduzidas por costureiras. Tinha a Dita Verde, que pegava ou não costura dependendo do seu estado mental naquele momento. Minha mãe parava o fusca com o motor ligado e mandava uma de nós tocar a campainha. Se ela nos recebesse bem, descíamos com os tecidos. Se xingasse, era correr de volta para o carro e partir. Uma outra, a que tinha tantos gatos que não podíamos contá-los, fez o diagnóstico definitivo, éramos meninas pequenas e ainda hoje as suas palavras ecoam entre nós: Uma é magra demais, a outra gordinha, essa aqui até que tem o corpo bom. Nossos vestidos, blusas e mesmo calças compridas saíam daquelas saletas amontoadas de panos, pelos, pó, um espelho ruim, e, claro, a máquina de costura, onde elas montavam a cada decisão tomada e pedalavam com convicção. Depois o que foi roupa terminou recortado em colcha. As saias e camisas da minha mãe, das tias, da avó. A excitação de reconhecer um retalho da saia da tia que nos levava para nadar no antigo tanque de lavar café na fazenda. Os joelhos arranhados pelo cimento grosso do tanque. E a água roxa do banho com violeta genciana na volta. O pedacinho da camisa que ela usava por baixo do casaco de tricô combinando. Nós pendurados na mangueira, ela embaixo apontando as frutas maduras e esperando com a cesta. Com o caroço bem chupado e seco, fazíamos bonequinhos loiros. As flores da bermuda da prima solteira que lia a sorte nas linhas da mão. O nosso destino inventado. Os cheiros, as vozes e risadas de então misturados nos daquele momento no quarto, as lembranças vindo na roupa inteira dela. O quadradinho da seda da camisa preta de bolinhas brancas que a avó usava com um colar de pérolas em ocasiões especiais e que ficava tão elegante e comprometida naquela atitude de respeito com a ocasião! Ainda não tínhamos saudade dela. O pedaço de crepe do vestido que uma de nós usou no baile em que ficou sentada a noite inteira porque nenhum menino a tirou para dançar. Nunca tomei toco, disse minha irmã. A graça amarga. Retalhos de vestidos das mais velhas herdados pelas menores. Mãe, esse vestido nasceu meu ou ficou para mim? Retalhos de estampas iguais em tons diferentes de vestidos iguais em tamanhos diferentes distribuídos entre nós. Sobras de toalhas de mesa de renda em que tantas vezes comemos bolo e cantamos parabéns. A xadrez em que tomamos canja divididos em grupos dos que comiam pescoço e pés da galinha e dos que não podiam com isso, eu incluída. Deitadas na cama, caçando memórias, emendando experiências, éramos, como os retalhos da colcha, costuradas umas nas outras, tão diferentes, tão iguais, tão necessárias cada uma no todo do afeto compartilhado.

O que se ouve

Posted on 8 janeiro, 2021

O som macio dos pneus contra os pedregulhos veio crescendo. Mantive a pisada, não desacelerei nem apertei o passo, entretida com o meu próprio barulho na estradinha de terra. Pipocas estourando debaixo dos pés. O motor era silencioso apesar da idade da caminhonete. Os velhos fazem barulhos, pensei. É preciso estar atento para não gemer a cada gesto puxado, por exemplo. A música do radio chegou logo em seguida tocando baixinho, sem pressa, no ritmo do movimento do carro. Quando me alcançou, aí, sim, quase parando, o motorista cumprimentou pela janela aberta, boa tarde, virando a cabeça no momento exato em que o cachorro ao seu lado também o fez. Respondi, a voz saiu fininha, estridente, talvez porque guardada muito tempo, quebrando a afinação do momento. Ele mudou a marcha e seguiu levantando poeira e deslizando pelas pedrinhas até sumir na curva. Passarinho piou e foi só.