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Monologando

Posted on 22 janeiro, 2021

Cutucando as plantas e falando sozinha. Comemorando um broto surgindo, sacando fora as folhas secas, avaliando a muda que veio da fazenda, com pena de tê-la tirado da terra boa e larga. Uma conversa comigo mesma de carinho e reclamação, organizando a tarefa em voz alta, sabendo-me acompanhada. Pensei no Geraldo Vandré, que encontrei há muitos anos quando fui ao Campo de Marte fazer uma matéria sobre a escola de pilotagem. Alguém me apontou o Vandré lá no fundo, cabeça branca, macacão de mecânico, metade do corpo enterrado num avião pequeno, cutucando o motor. “Ele vive aqui, fica mexendo em motores velhos e falando sozinho. A gente deixa porque tem respeito pela história dele.” Cheguei perto, mas não tive coragem de me apresentar. Para não dizer que não falei das flores era o chavão que ele não precisava ouvir e do qual talvez até fugisse. Nem que quisesse poderia afastá-lo daquele mundo onde me pareceu absolutamente à vontade. Conversando com os motores como eu com as plantas. Deixa quieto.

Pedaços da gente

Posted on 11 janeiro, 2021

Esparramadas sobre a colcha de retalhos, irmãs e primas, competíamos para ver quem se lembrava de onde vinha cada tecido. Recontávamos a nossa história ali entre o algodão dos shorts e blusinhas, o crepe dos vestidos longos, a flanela dos pijamas, de vez em quando, um quadrado de lã de algum casaco. Ríamos pensando nos modelos, estampas e cores de um mundo em que quase todas as roupas eram escolhidas nas revistas e reproduzidas por costureiras. Tinha a Dita Verde, que pegava ou não costura dependendo do seu estado mental naquele momento. Minha mãe parava o fusca com o motor ligado e mandava uma de nós tocar a campainha. Se ela nos recebesse bem, descíamos com os tecidos. Se xingasse, era correr de volta para o carro e partir. Uma outra, a que tinha tantos gatos que não podíamos contá-los, fez o diagnóstico definitivo, éramos meninas pequenas e ainda hoje as suas palavras ecoam entre nós: Uma é magra demais, a outra gordinha, essa aqui até que tem o corpo bom. Nossos vestidos, blusas e mesmo calças compridas saíam daquelas saletas amontoadas de panos, pelos, pó, um espelho ruim, e, claro, a máquina de costura, onde elas montavam a cada decisão tomada e pedalavam com convicção. Depois o que foi roupa terminou recortado em colcha. As saias e camisas da minha mãe, das tias, da avó. A excitação de reconhecer um retalho da saia da tia que nos levava para nadar no antigo tanque de lavar café na fazenda. Os joelhos arranhados pelo cimento grosso do tanque. E a água roxa do banho com violeta genciana na volta. O pedacinho da camisa que ela usava por baixo do casaco de tricô combinando. Nós pendurados na mangueira, ela embaixo apontando as frutas maduras e esperando com a cesta. Com o caroço bem chupado e seco, fazíamos bonequinhos loiros. As flores da bermuda da prima solteira que lia a sorte nas linhas da mão. O nosso destino inventado. Os cheiros, as vozes e risadas de então misturados nos daquele momento no quarto, as lembranças vindo na roupa inteira dela. O quadradinho da seda da camisa preta de bolinhas brancas que a avó usava com um colar de pérolas em ocasiões especiais e que ficava tão elegante e comprometida naquela atitude de respeito com a ocasião! Ainda não tínhamos saudade dela. O pedaço de crepe do vestido que uma de nós usou no baile em que ficou sentada a noite inteira porque nenhum menino a tirou para dançar. Nunca tomei toco, disse minha irmã. A graça amarga. Retalhos de vestidos das mais velhas herdados pelas menores. Mãe, esse vestido nasceu meu ou ficou para mim? Retalhos de estampas iguais em tons diferentes de vestidos iguais em tamanhos diferentes distribuídos entre nós. Sobras de toalhas de mesa de renda em que tantas vezes comemos bolo e cantamos parabéns. A xadrez em que tomamos canja divididos em grupos dos que comiam pescoço e pés da galinha e dos que não podiam com isso, eu incluída. Deitadas na cama, caçando memórias, emendando experiências, éramos, como os retalhos da colcha, costuradas umas nas outras, tão diferentes, tão iguais, tão necessárias cada uma no todo do afeto compartilhado.

O que se ouve

Posted on 8 janeiro, 2021

O som macio dos pneus contra os pedregulhos veio crescendo. Mantive a pisada, não desacelerei nem apertei o passo, entretida com o meu próprio barulho na estradinha de terra. Pipocas estourando debaixo dos pés. O motor era silencioso apesar da idade da caminhonete. Os velhos fazem barulhos, pensei. É preciso estar atento para não gemer a cada gesto puxado, por exemplo. A música do radio chegou logo em seguida tocando baixinho, sem pressa, no ritmo do movimento do carro. Quando me alcançou, aí, sim, quase parando, o motorista cumprimentou pela janela aberta, boa tarde, virando a cabeça no momento exato em que o cachorro ao seu lado também o fez. Respondi, a voz saiu fininha, estridente, talvez porque guardada muito tempo, quebrando a afinação do momento. Ele mudou a marcha e seguiu levantando poeira e deslizando pelas pedrinhas até sumir na curva. Passarinho piou e foi só.