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A mamma

Posted on 19 abril, 2021

Para a minha ex-sogra, que faleceu outro dia, deixando a gente com um buraco no estômago.
Acostumada que fui pelo avesso disso, com mãe mineira, intelectual, pouco afeita à cozinha, demorei a entender o carinho da mulher simples, de afeto desmedido pela família, amor oferecido sempre na ponta do garfo. O cheiro da casa dela era de molho de tomate fresco, alho, azeite e manjericão. Vinha nas mais variadas formas, na lasanha, no bife à parmegiana e, para mim, especialmente, na carne de panela. Era sempre perfeito e, no entanto, ela sofria. Sofria com tudo. Sofria na escolha das frutas e legumes da feira, horas em cada barraca examinando e comentando as qualidades e defeitos com o feirante. Sofria no açougue, em cada decisão que tomava com rigor, nunca era o que poderia ser. Sofria entre insegura e dona da cozinha, no fazer, na regra imexível apesar de tantos anos na lida. Para isso, só a pinga com limão que compartilhamos ali muitas vezes, pequenas, poucas liberdades femininas conquistadas. Sofria especialmente quando punha aquela maravilha na mesa. Explicava repetidamente a falta de tempo, a distração, os ingredientes longe do ideal. Pedia desculpas enquanto nos fartávamos com o seu afeto saboroso.
O filho, único homem, tinha regalias de príncipe porque ela achava que ele também, por qualquer razão, sofria. Durante os muitos anos em que fomos casados, ela não confiava, com razão, nem em mim nem na cozinheira de casa. E mandava todos os dias, às 18h30 pontualmente, o jantar do filho. Se o prato pedia queijo ralado, quase sempre pedia, vinha o queijo à parte. Italiano no Brasil não come sem pão. Então chegava o pão junto. No começo, enfezei. Depois, eu e a empregada ficamos muito agradecidas por não termos que nos preocupar com os enjoamentos diários daquele filho mal ou bem acostumado. Mas a gente passava vontade. Sobretudo as crianças, proibidas de tocar naquela comida saborosa. Causei alvoroço entre a mulherada emancipada dos encontros profissionais que frequentei mundo afora quando contava essa prática em casa.
Entre as inúmeras demonstrações de carinho comigo e com as minhas filhas, que ela acolhia como só uma nona sabe acolher, havia a de nos esperar aos domingos, avental e batom, para a melhor e mais farta refeição das nossas vidas. Saíamos dali nos sentindo muito amadas. Mesmo eu, que era só a mulher do filho dela. Uma vez, eu trouxe café da fazenda:
-Foi meu filho?
-Não, eu sei que senhora gosta, então…
-Meu filho tem mania, já falei que não precisa.
-Ele nem foi conosco! É presente meu para a senhora.
-Ai, esse meu filho!

Miopia

Posted on 10 abril, 2021

Perdi o último par de óculos. O terceiro. Num eu pisei e destruí as suas hastes. O outro está tão torto no rosto que a terapeuta me obrigou a tirá-lo durante a sessão para não distrair a atenção dela. Não vou mandar fazer novos agora. Tenho medo de ficar me esfregando em armações contaminadas. Já procurei em toda parte, nos lugares mais improváveis, sempre achei tão triste a pessoa que não enxerga, tateando atrás dos óculos! Não sei exatamente quantos graus e que tipo de deficiência tenho. Não são números altos, tenho alguma dificuldade para ler e ver as coisas com boa definição de longe. Ainda assim, como dos demais confortos, fiquei dependente deles. Quando entrevistei Caetano Veloso numa homenagem que fizeram no seu aniversário de 50 anos, no Metropolitan Museum, em Nova York, ele falou sobre a falência do corpo e deu o exemplo: A gente se acostuma com tudo, acaba achando bom o que nos tira o mal-estar. Sempre tive horror à idéia de usar óculos. Pois hoje, quando me sento na poltrona, saco os óculos da caixinha, ponho e leio, sinto um prazer enorme!
Eu fui feliz durante o curto espaço de tempo em que fiquei sem enxergar direito. Passada a insegurança inicial, percebi que o mundo melhora muito quando está fora de foco. Não vejo a sujeira da casa, nem as minhas marcas no rosto, as flores murchas no vaso, as unhas grandes dos gatos, as más notícias no computador. A realidade é implacável, não tem negociação. Por uns instantes, tirei vantagem de um mundo ideal. Abri um livro do Borges que não exigia leitura, só fotos e desenhos, ele retratado em imagens quando já não enxergava mais. Passeei pela casa achando as coisas bonitas nas estantes. A grosso modo, são. De outra forma, vejo rabinhos e pescoços de bichos quebrados, livros fora do lugar, fios aparecendo, objetos descascados, perdendo a cor. Nem troquei a roupa de cama fazendo que estava limpa. Comi a banana de casca escura. Agora, meio a contragosto, encontrei os óculos e só por isso estou escrevendo. Descrevendo as pequenas imperfeições à minha volta. Na minha pele, dentro de mim. As doenças e a feiúra do mal. Observando de perto o todo errado no mundo. Nunca achei que miopia fosse opcional. Talvez eu perca os óculos novamente.
Beatriz Ribeiro de Moraes, Matthew Shirts e outras 177 pessoas
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