Pouco antes de embarcar para Buenos Aires, já no aeroporto, notei um fio de sobrancelha fora de lugar. Foi como se tivesse descoberto que meu marido tem uma amante e não conseguia pensar noutra coisa. Quis comprar uma pinça ali mesmo e arrancar a idéia fixa pela raiz. Não houve tempo, chamaram o vôo e segui vencida o meu destino. Na cabeça re-running a cena de um episódio do Seinfeld : “Acho que as sobrancelhas dela não são iguais. Incrível. As sobrancelhas dela são desiguais. Eu vou agüentar ficar olhando para sobrancelhas desiguais o resto da minha vida?”

Não sou muito vaidosa, ao contrário, muitas vezes peco pelo descaso com minha aparência, mas tenho “umas coisas” e cada um tem  “as suas coisas”. E´assim com as manias e cismas e teimas. Caso da própria sobrancelha, que nunca na vida tirei, e agora aquele fio fora da fila me olhava de um jeito tão desafiador que comprei a briga.

Mal pisei em terras portenhas e me pus atrás de uma farmácia, sem saber como se diz pinça em espanhol (acabou que nem é tão diferente, “pinza”). Achei as “pinzitas”  numa loja de souvenirs e vejam o que é uma boa ideia: estavam acondicionadas numa caixinha colorida e eram decoradas com o rosto de mulheres famosas. Escolhi logo a da Frida Kahlo, a artista mexicana que tinha aquelas sobrancelhas lindas, mas quase coladas uma na outra, a popular “monocelha”. Imagem apropriadíssima para “una pinza”. Minha filha adolescente, moreninha de cabelos pretos, se parece um pouco com ela e já foi vestida de Frida numa festa escolar, mas detesta a comparação. Ficou traumatizada com aqueles auto-retratos em que, além das sobrancelhas grossas, a pintora fez questão de marcar um bigode de deixar o Sarney com inveja. Como nenhuma biografia explica a sua relação com o bigode, ficamos sem saber se ela não conseguia se livrar dele por dificuldades técnicas da época ou se era uma proposta surrealista, como muitas de suas obras.

Várias mulheres têm buço, nome científico daquela penugem fina acima dos lábios. É chato, mas esteticamente aceito. Bigode é outro departamento. Tive uma colega de trabalho que era bigoduda assumida. Jovem, bonitinha, casada, dois filhos pequenos. Ainda que agência de publicidade tenha um ambiente liberal, há um código estético  ( e nesse caso ético) informal que orienta a turma e permite uma convivência sem grandes agressões visuais. Podem acreditar: é muito perturbador conviver com uma mulher de bigode. Não há como não notar, é escuro, grosso, impossível, para homens e mulheres, evitar um certo mal-estar. A amigas ela declarou que não deixou de clarear os pelos porque andou sem tempo, nem esqueceu ou estava sem dinheiro para depilá-los. Aceitar-se como veio ao mundo foi uma escolha consciente, como quem decide ser vegetariano ou evangélico.
Sempre achei que quanto mais natural a nossa aparência, melhor, e mantive os pelinhos claros por muito tempo. Vivi confortável assim até o dia em que meu chefe, com a franqueza que lhe é peculiar, observou: “ Esse seu bigode está muito loiro”. Eu tinha clareado com Blondor, produto que toda mulher, peluda ou não, conhece e respondi: “Você preferiria que estivesse preto?” E ele: “Não, preferiria que você não tivesse.” Aquilo me atormentou tanto que tirei o bigode para sempre. A laser. Agora, toda vez que falamos de salário, me joga na cara que eu é que estou devendo a ele: “Um favor desses não tem preço”.