Ouço o episódio de um jogador de futebol que, criticado por ter velocidade, mas pouca objetividade com a bola, explicou: Ou corro ou penso. Faço a analogia com a escrita e concordo: se disparar, erro o gol. Os pensamentos, inúmeros, vivos, energéticos, ziguezagueando em todas as direções, excitam-se e impulsionam-se rapidamente para o alto em combustão. São rojões a explodir e a se derramar em partículas inteligentes emocionadas multiplicadas e descontroladas, perdidas no infinito, esparramadas no chão. Quero disparar em desabalada carreira atrás daquele alvoroço mental e agora sei que, como o atleta confesso, não posso. Deixo, então, a euforia do desejo me ultrapassar. Escolho as palavras, uma a uma, invento jogadas, fujo das ensaiadas. Num dado momento, brota.