Paixão em Minas, nunca entendi, é sofrimento. Estar apaixonado pode significar na linguagem popular, estar infeliz. “Ele ficou apaixonado quando cortaram a quaresmeira da frente da casa”, a tia conta cheia de pena. E, por um segundo, você acha que virá uma história de amor daquele caso que acabou bem ali, na tristeza do vizinho.

Qualquer um sabe que as paixões, mesmo quando bem sucedidas, carregam o risco da dor. Mas não acho que é daí que os mineiros extraíram o significado pessimista da expressão. A pepita tão valiosa da sua personalidade condoída. Se tudo em Minas é pesaroso, difícil demais, por que não estender a bíblica Paixão de Cristo para os tantos infortúnios que a vida cotidianamente nos traz, o desconsolo pela quaresmeira derrubada?

Crianças, em Guaxupé, acordávamos cedo e, sem escola, íamos direto para o quintal brincar com a recomendação expressa de não falar alto nem dar risada porque é pecado ser feliz na Sexta-Feira Santa, a Sexta-Feira da Paixão. Aquilo era a melhor farra do mundo, a proibição transformava-se num desafio e a gente caprichava na provocação para a briga ou a gargalhada. Naquele dia fazia-se um silêncio puro, de pedra. A gente só ouvia cachorro latindo, bicicleta descendo as ladeiras de paralelepípedo ou o sino da Catedral tocando. O único momento do ano em que o rádio do quarto de costura da minha tia, preso à parede por um fio remendado, não cantava nem baixinho. Era também a folga da empregada, a Sá Maria, e a gente ficava se perguntando para onde ela iria já que morava conosco desde sempre e não parecia conhecer a vida do portão para fora.

Minha avó era uma inspetora rigorosa dos assuntos religiosos e de vez em quando aparecia no quintal reclamando de uma manifestação mais evidente de diversão. “Hoje é dia de tristeza, de compadecimento, de outra forma não se justifica Jesus ter sofrido e morrido por nós.” E explicava com imagens fortes o episódio do calvário e da crucificação de Cristo. A gente ouvia cheios de medo, mas não entendíamos o que isso tinha a ver com o tom das nossas vozes ou com um mergulho na piscina do clube que era o nosso programa nos feriados, à exceção desse e o do Natal.

Na época, havia um revezamento preventivo entre os sócios no uso da piscina. Dias masculinos e dias femininos. Homens e mulheres não se encontravam dentro d’água. Depois, a regra evoluiu para uma divisão dos metros cúbicos de lazer. O clube atravessava uma corda dividindo a piscina ao meio, calções de um lado, biquinis de outro. E, claro, bastou essa medida para passarmos o tempo todo mergulhados com os olhos bem abertos naquele tanque de cloro espiando pelo muro virtual os corpos se mexendo em câmera lenta do outro lado. Falsos pudores mineiros. Atrás dos vestiários, embrulhados em toalhas, acontecíamos tudo. A piscina foi durante muito tempo o maior ponto de encontro da cidade. Abrir mão disso, ainda que pelo sofrimento de Cristo, nos doía muito.

A gente deixava, então, aquele longo dia, cheio de restrições passar, escondíamos qualquer sinal de alegria e acompanhávamos a procissão até a Catedral com ar contrito, certos de que se Deus nos visse sofrendo teria compaixão de nós e, na sua infinita misericórdia, aceleraria o tempo empurrando-nos rapidamente para o sábado de Aleluia, com direito a baile e tudo, e todo mundo voltaria a ser feliz.

Mas a vocação dessa gente “da tristonha cultura montanhesa”, como dizia o Otto Lara, é mesmo a de apaixonar-se no sentido mais trágico da palavra. Sendo a vida uma longa penitência para aplacar as culpas, com curtos intervalos de regojizo, na época da jaboticaba, por exemplo. A vida reverenciando a sua mortalidade.

Minha mãe nos dá conta que o Correio do Sudoeste reproduziu um recado do Vaticano liberando a carne na Sexta-Feira Santa. “Justo agora que o povo está com poder aquisitivo para comprar um bacalhauzinho”, foi o comentário do gerente do supermercado para ela. Nada, nunca uma boa notícia.