A pedido do ilustrador, tentei fazer um livro infantil. Ele já tinha o traço desde a primeira letra. Eu acreditando que para escrever bastava escrever. A primeira versão da história do meu rabo era para crianças idiotas, daqueles que nem eu fui num tempo em que a gente entrava no carro para as férias sem perguntar para onde iria. Consegui falar com as palavras mais previsíveis do vocabulário brasileiro numa conversa pobre e desinteressante, já perdendo as crianças pelo caminho, eu mesma vendo televisão e passeando no facebook enquanto escrevia. Depois achei de gritar com letras grandes e sons onomatopaicos como se os leitores, além de pouca idade, tivessem problema de visão e audição. Me parecia que a compreensão se daria naquele exagero, desconsiderando que as crianças hoje já nascem sabendo ou desconfiando. Na ultima tentativa me superei. Fui didática no que isso pode ter de mais emburrecedor, com um discurso falsamente generoso, moralista, politicamente correto, do tipo “quem nunca teve um rabo que atire a primeira pedra.” Senti vergonha e decidi escrever para as crianças que fomos.

O rabo surgiu da curiosidade da minha filha com uma pequena cicatriz que carrego nas costas, resultado da retirada de um cisto. Na hora, achei que falar de fisiologia era muito menos atraente do que descrever a vida de uma menina que nasceu com um lindo rabo de raposa. Como a reação dela foi de credulidade e interesse, fui acrescentando elementos à história, explicando que com o rabo fui sempre o centro das atenções, que todo mundo na nossa família achava bacana e que, infelizmente, numa certa altura tive que cortá-lo porque o mundo não estava preparado para ele. Foi só muito tempo depois que ela soube que Papai Noel não existe, nem a fadinha do dente, nem o rabo da mamãe. Mas que sapo, sim, se ela beijar com amor, vira príncipe. O livrinho, chamado A natureza das coisas, seria assim:

Mãe, e esse risquinho estranho?

Apontou o dedinho para a marca nas minhas costas enquanto eu me vestia.

Foi o que ficou do meu rabo, não sabia?

Ela me olhou assustada.

E você teve um rabo, mãe?

Não tinha me preparado para o momento, mas a idéia deve ter passado muito tempo cozinhando na minha raiva, desde quando ganhei aquela cicatriz feia. Para não sair perdendo na pergunta dela, me dei de presente um rabo que, afinal, parecia muito mais divertido do que um cisto sem graça.

Seu avô, que conta tantas histórias, nunca contou essa para você? Eu nasci com um ossinho pequeno, logo acima do bumbum, examinaram na maternidade e acharam que ali cresceriam asas e que eu era um bebê anjo.

E você era?

A expressão séria, curiosa.

Tive que ser honesta.

Não, eu era o avesso disso.

E avesso de anjo é o que?

É criança levada, desobediente, bagunceira.

Ah eu queria ter bebês anjos gêmeos, um menino e uma menina, com asinhas! Animou-se.

Interrompi.

Aí, foi crescendo um rabinho, que virou um rabo médio e depois transformou-se num rabão maravilhoso de raposa. Vem aqui, me ajuda o zíper, pedi, tentando esconder o assunto.

Mas ela cutucou.

Saía daqui, é?

Saía. Não era um rabo “se acha” de gato, ou um rabo agitado de cachorro, ou um rabicó de porco, não. Era mesmo bem peludo e elegante e vermelho, o mais bonito de todos, um rabo de raposa!

Mais lindo do que a tatuagem da tia Beatriz?

Muito mais! Eu nasci assim, ela teve que desenhar na pele.

Mais legal do que o piercing do Murilinho?

Claro! O rabo veio comigo, combinava perfeitamente, o piercing do seu primo só ficou dele depois que colocou na orelha.

Enriqueci a história quando senti reação positiva na platéia, o brilho nos olhos.

Era a maior briga na hora do banho. Todo mundo queria passar shampoo, secar, fazer chapinha, trança. Até rabo de cavalo, imagina!

E o que aconteceu?

Ele cresceu demais, começou a me incomodar, não conseguia sentar direito na carteira apertada da escola, pegava poeira, molhava na chuva, dava muito trabalho para cuidar. E ficava muita gente perguntando. Aí eu pedi e a vovó me levou ao hospital para tirar.

Ái! Fez expressão de aflição. Doeu?

Nada, mas ficou a marquinha.

E por que eu não tenho rabo também?

Não sei, minha filha, a natureza é assim, tem suas próprias regras e exceções. Já pensou se eu fosse careca como o vovô?