Era verão em Nova York e a mulher deitava-se sobre a maca, uma cadeira de rodas reclinada, num minúsculo vestidinho de alça que mal a cobria, o que ela mostrava era uma pele curtida de sol, pernas atrofiadas sobre o lençol branco. Aguardava na horizontal o sinal para atravessar uma rua movimentada na altura da 30 com a Segunda Avenida. Perguntei, com medo porque em Nova York a gente nunca sabe se vai receber de volta um sorriso ou uma malcriação, se queria ajuda. Nunca tinha visto uma pessoa circulando numa cama com rodinhas daquele jeito, mas, de novo, era Nova York. Já na saída senti o peso da coisa e tive dificuldade de iniciar a subida, a Segunda Avenida é inclinada em quase toda a sua extensão. Achei que todo mundo olhava para mim, pequenininha, desajeitada, pilotando aquele estranho veículo. Ninguém me via. A mulher ia falando num inglês acelerado demais para o meu na época, eu entendia uma palavra ou outra e tentava responder, o cérebro ocupado em livrar-me logo daquela missão. Vermelha, suando, manobrei a maca entre as pessoas, desviei de obstáculos, ela ali esparramada tomando sol. Começou a dar raiva. A distância só aumentava. Ela queria ir até a rua 59 para tomar o tramway para a Roosevelt Island. Pediu para parar duas vezes. Numa banca de jornais para comprar o NY Post e numa deli onde a estacionei na porta, entrei e saí com um maço de cigarros que ela abriu e começou a fumar com vontade. Era preconceituosa e de direita, fazia comentários desagradáveis sobre imigrantes “que só falavam as suas proprias línguas” como se com isso elogiasse a minha capacidade de arfar em inglês. Contou que veio de família rica, que estudou em Yale, só não explicou como foi parar ali na cama com rodinhas. Quando eu desacelerava para tomar fôlego, ela me lembrava dos horários rígidos do tramway e eu apertava o passo empurrando o que agora me parecia um caminhão de cimento. Eu pensava, não vou amaldiçoar o momento em que me meti nesse calvário porque aí ao invés de ir pro céu vou pro inferno. E imediatamente me penitenciava pelo mau pensamento. Quando finalmente chegamos ao destino, o dela porque o meu eu já tinha esquecido, à porta do elevador que a deixaria na plataforma do bondinho, ela agradeceu sorridente e disse como se já tivesse dito antes, que poderia ter acionado a rodinha elétrica, mas que nesse caso não teríamos a companhia uma da outra. Eu nunca soube que tive essa opção. Não ouvi ou não entendi. Mas fiz que concordava. E ao longo do tempo, concordei.