Compramos a casa e queríamos jaboticaba no pé. Os passarinhos adivinhavam e já bicavam o ar doce no quintal. E então, à toa, o caminhão passou chacoalhando as árvorezinhas na caçamba, frescas, arrancadas enquanto cresciam, os pés sujos de terra e o ar desencantado dos condenados. Foi uma decisão impensada, decidida com o coração, contra os princípios mineiros de ver a coisa surgir da terra e, por merecimento, se firmar. Os pomares formados ao longo de varias gerações com as suas sombras e cheiros. Tive pena e achando que ninguém mais escolheria, fiquei com duas magrinhas raquíticas, com poucas frutas coladas à pele e nenhuma perspectiva de desabrochamento imediato. Estavam enredadas, abraçadas em pânico, deu trabalho soltar uma da outra, nem precisava, pensei, mas o jardineiro insistiu, quebrou uns galhos com firmeza e as separou. Abriu buracos enormes na terra, desproporcionais a meu ver, e meteu as coitadinhas ali à força, como se pudessem fugir, sem dar tempo a elas de entender o que se passava. Senti que demoraria até que se sentissem em casa novamente. Todos os dias, eu abria a mangueira e deixava a água escorrer ali nos seus pés, encharcando as suas raízes, afogando suas memórias, dizendo a elas que a vida comigo seria, talvez, melhor. Porque eu as amava muito. Porque eu entendia o seu sofrimento. Porque estaria com elas todo o tempo e nunca permitiria que as tocassem de modo desrespeitoso ou inconsequente. E as jaboticabeirazinhas olhavam-se em silencio e com a enorme paciência das árvores, deixavam que eu expressasse a minha humanidade.