Atrás das esculturas de mármore do museu, quebrando o silencio de pedra, os dois funcionários consertam uma porta. Testam uma peça de metal que deveria fixá-la ao chão e que teima em lhes escapar das mãos na hora de prender. Estão sérios e compenetrados como os apreciadores da boa arte, mas diferente dos visitantes, concentram sua atenção no próprio trabalho, nas suas mãos, na solução do problema que enfrentam naquele momento. Trocam palavras num espanhol sem rodeios, comandos simples de segurar, apertar, soltar. Sem reflexões profundas ou elaborações estéticas. Encurvados sobre a sua dificuldade em uniformes cinza, ignoram respeitosamente o ambiente.
A mostra reúne gigantescas peças esculpidas em carrara que, como se de papel ou tecido, dobram-se, curvam-se, movimentam-se naturalmente seduzindo o observador. As reentrâncias e saliências aparentemente macias, pedem para ser tocadas, vem o desejo de passar a mão no sentido mais vulgar da expressão, o puramente sensual, apesar da advertência para que não o façamos. E então, o silencio ecoando no teto alto contra o som das ferramentas no chão. Me interessa agora não mais a arte ou os visitantes nem o que nos provocam as obras. Antes, o contrário disso, o que distingue aqueles trabalhadores de todo o resto, a sua distância das circunstancias, a sua isenção da atmosfera artística, a sua condição ensimesmada, ali e alheios ao que ocorre ali.
Penso nos funcionarios dos hospitais que limpam burocraticamente o chão enquanto a dor, o medo e a morte entram e saem. O sangue e as lágrimas torcidos nos baldes em panos desinfetados e a rotina pessoal paralela às tragédias atendidas ali, o celular que não funciona, a cor do batom no catalogo da Avon, do preço do material escolar, o trem que atrasou naquela manhã. Há quase um conforto na idéia de que a vida segue por caminhos diferentes em universos paralelos e possibilidades distintas.
Penso no pessoal de terra dos aeroportos, os que não embarcam conosco em ferias cheias de expectativas, reuniões tensas de trabalho, no vai e vem ininterrupto de malas, objetos, documentos e gente mudando a alma de lugar. Alheios a tudo, no final do expediente, tiram o uniforme, tomam banho, comem e vão dormir em suas camas. Sempre senti inveja dessa gente. Sempre desejei, ao atravessá-lo, que o aeroporto fosse só o meu emprego e que eu pudesse olhar as pessoas passageiras por ali sem sentir a emoção descontrolada da viagem, sem me contaminar com o frenesi do lugar, preocupada apenas com o movimento do supermercado na volta para casa.