Ainda bem que não sou mãe de menino. Além de conservadora, quase machista quando o assunto é masculinidade (e feminista nas questões da mulher), teria um ciúme louco do meu filho sendo manipulado feito um boneco pelas mãos pouco profissionais de uma menina. Já presenciei dezenas de cenas assustadoras em casa em que a Laura submete seus amigos a sessões de cabeleireiro e manicure (o metrossexualismo aos 14 ainda não inclui depilação e sobrancelha) com o argumento de que “sua mãe vai gostar”. Claro que isso é resultado de anos de prática em bonecas e amigas menos resistentes que saíam da minha casa com o cabelo destruído para apanhar na delas. A Laura tinha duas amigas Vitória(s), uma baiana e a outra oriental. Fez que fez e conseguiu, para jubilo de todas, transformar o cabelo encaracolado da brasileira em liso chapinha e o da oriental em cacheado babyliss. O que me deixava curiosa não é a vocação obsessiva da minha filha pela estética, mas a submissão dos meninos a isso. Até entender que, nos dias de hoje, o mesmo menino que joga futebol e se pega de socos com os outros na rua pode ter seu cabelo penteado pela menina ou se deixar tirar a cutícula da unha roída. É apenas uma forma de se tocarem sem assumir o desejo, uma brincadeira divertida em que, por pouquíssimo tempo, esses adolescentes hiperativos conseguem manter o jogo milenar: eles fazem que se rendem e ela faz que domou os potros inquietos.
Com Gabriel Alvarez, João Burti e Laura Vargas.