Olhei para ela ali pendurada no gancho, como uma borboleta de alumínio pregada na parede, e o coração apertou. Bicicleta parada é nada, escultura inanimada.Nem tinha tanta vontade assim de pedalar. Foi mais por ela, por sua triste condição de espectadora, que me estiquei e a desci cuidadosamente, as rodas ensaiando um movimento no ar.Ainda no piso de tacos, experimentei a altura do banco sem saber quem esteve ali por ultimo. Ela me vestia justinho. Levei-a para a rua, pesei o pé no pedal, um só, e soltei o corpo no corpo dela. Descemos a ladeira. Primeiro devagarinho, escorregando, até ganhar velocidade e levantar vôo. Pássaro, foguete, avião, planamos em silencio sem asas, sem motor, furando o céu com o rosto. Minhas mãos nos seus braços encontrando cumplicidade. Sou eu, somos nós, meu coração dizia, protagonistas da nossa emoção, girando a roda solar, deslocando-nos no tempo, no espaço, trocando a alma de lugar. Avançamos pela avenida vazia. O vento no centro de tudo, olhos, ouvidos e o chão, uma linha riscada e interrompida, riscada e interrompida. E então, estávamos livres, ora ziguezagueando embriagadamente ora marchando com disciplina enquanto as imagens corriam ao lado, postes, árvores, pernas, o meio-fio. Outras tantas bicicletas, nossos pares movíveis, sugeriam um arrebatamento coletivo em curso. Mas escolhemos a casa. Senti as pernas arderem na subida, a puxada doía nela também. Fomos até a parede onde a dependurei novamente transpirando poeira. Recuei ofegante e nos despedimos, agora plenos de sentido.