Pelo armário entreaberto pude ver as camisas penduradas com disciplina em cabides iguais. As mangas, que só conheci amassadas, estavam alinhadas em formação militar, impecáveis pelo calor do ferro de passar. Estendi a mão e puxei a cor de rosa, testemunha frequente do que não deveria. Cheirei o amaciante, senti a textura macia e soltei. Ali se encontravam duas estranhas, a casa e a rua. Os cabides acomodavam o antes de tudo, o anterior a nós, o escolhido e institucionalizado. Nós éramos o tempo suspenso, o que não cabia no armário. Tomei coragem e abri o cesto onde as roupas sujas, despojadas, misturadas, garantiam o carater familiar. Procurei ansiosa por algum tecido que tivesse sido momentaneamente meu e uma calça cáqui do avesso, despudoradamente enredada na alça de um vestido, me olhou de revés. Senti inveja daquela intimidade e da singeleza que ela carregava. Da crença que eu já não tinha e das tantas possibilidades para aqueles que crêem. O que se passou ali podia não ser real, mas existia nos meus pesadelos. O pertencimento é uma noção adquirida muito cedo. Mais adiante, quando toquei o peito abrigado na camisa recém saída do cabide e senti o coração batendo forte lá dentro, entendi que é preciso desvestir os sentimentos para nos casarmos com eles.