Sentado na esquina, o jovem morador de rua, barbudo e descabelado, dispara impropérios desconexos e raivosos para o alto. Outro, mais velho, inchado de bebida, vem pela rua carregando um saco de lixo preto no ombro, fumando. Aproxima-se do cabeludo e oferece a minúscula bituca do cigarro. Com a mão imunda, o outro aceita e mete o quase nada na boca. Solta fumaça. O mais velho diz que tem um presente para ele. Diz isso e repete mais de uma vez enquanto mexe no bolso e dali tira o que parece ser um chaveiro já com chaves penduradas. O mais novo examina o objeto inútil como um índio diante de um relógio, com curiosidade e ceticismo. Estende a mão devolvendo a bituca. O mais velho faz um carinho distraído na cabeça dele, o olhar perdido. O sinal verde arrasta o táxi e os mendigos até aqui, mas eu já não volto para casa. Abro a porta e entro no mundo. Sem a proteção do isolamento, sem protocolo, sem máscara, sem paredes. Estou inteira com eles, passando o cigarro, fazendo cafuné, trocando presente achado por aí. Estou suja, descabelada, gritando xingamentos de raiva. Enlouquecendo. Salvando-me com gestos de afeto, de cumplicidade, de acolhimento. Estou desprotegida e desalmada. Eu sou o tempo que passa e distancia a casa da rua. Sou o táxi que segue quando o sinal autoriza. E o homem sujo que fica ali até acabar.