Passou por mim com uma blusa muito bonita e me ocorreu que a gente só precisa, de verdade, de uma roupa bonita quando fica mais velho. Foi meu ultimo pensamento antes de receber o jorro de água morna no lavatório do cabeleireiro. Quando me levantei, toalha na cabeça, a dona da blusa bonita estava fazendo as unhas e a sua expressão refletida no espelho era indefinida, entre assustada e pensativa, olhos arregalados, fixos no infinito, a boca aberta como se gargalhando sem som. Tinha o celular apertado na mão que a manicure não manipulava. Provavelmente a notícia tinha chegado por ali. Começou a balbuciar qualquer coisa que não pude ouvir direito por causa do secador. Não havia ainda um interlocutor definido, falava com ela mesma. E então rompeu-se a barragem. As lágrimas lavavam seu rosto como eu só tinha visto em novela. Mas era muito mais do que um choro, era uma hemorragia transparente. E, diferentemente do que acontece nas novelas, ela não fazia força nem emitia som nenhum, só deixava as lágrimas correrem soltas, misturando-se ao que lhe vazava pelo nariz, descendo até o queixo e ali se acumulando. A dor deve fazer a gente suar. Ela suava muito, mesmo no ar-condicionado do pequeno salão, a testa molhada, o cabelo perdendo a forma, o rímel borrado, a blusa bonita encharcada. Trouxeram um copo d’água. Dirigia-se agora à manicure dobrada à sua frente e terminava cada frase com um “entende?” que a moça fazia que entendia concordando com a cabeça. Talvez para disfarçar a tensão do momento ou porque não soubesse que outra coisa fazer, foi buscar o carrinho de esmaltes e puxou uma cor que eu daria tudo para saber qual era. Que não fosse um vermelho a reforçar o drama. Que fosse rosinha aceitando um colo. A mulher estendeu a mão de forma automática e seguiu chorando e declamando sua desgraça em versos improvisados, de soquinho, puxando o ar. As pernas e os pés chacoalhavam nervosamente no ar. O corpo todo chacoalhava. Houve um clarão no ambiente barulhento suficiente para eu escutar uma frase e entender que tratava-se de uma traição do marido descoberta ou revelada naquele momento. Era tanta dor e tanta perda e tanto sofrimento naquela constatação que eu quis me levanter e dizer a ela que iríamos juntas maltratar quem a maltratava. Quis dizer a ela que terminasse as unhas, mas que nem esperasse o esmalte secar porque iríamos fazer sofrer quem impunha aquele sofrimento todo a ela. Não me importavam as circunstancias nem os motivos nem exatamente o que havia acontecido. Eu só queria acabar com aquele martírio e com a minha culpa, agora clara, pela tristeza que infligí a outros dessa forma. Eu não iria com ela a parte alguma. Não poderia confortá-la. Não teria o que dizer além de que ninguém faz isso para ferir, mas para dar sentido ao vazio que carrega. E que a blusa dela era muito bonita. Pena que a gente só precisa, de verdade, de uma roupa bonita quando está mais velho.