Para a minha ex-sogra, que faleceu outro dia, deixando a gente com um buraco no estômago.
Acostumada que fui pelo avesso disso, com mãe mineira, intelectual, pouco afeita à cozinha, demorei a entender o carinho da mulher simples, de afeto desmedido pela família, amor oferecido sempre na ponta do garfo. O cheiro da casa dela era de molho de tomate fresco, alho, azeite e manjericão. Vinha nas mais variadas formas, na lasanha, no bife à parmegiana e, para mim, especialmente, na carne de panela. Era sempre perfeito e, no entanto, ela sofria. Sofria com tudo. Sofria na escolha das frutas e legumes da feira, horas em cada barraca examinando e comentando as qualidades e defeitos com o feirante. Sofria no açougue, em cada decisão que tomava com rigor, nunca era o que poderia ser. Sofria entre insegura e dona da cozinha, no fazer, na regra imexível apesar de tantos anos na lida. Para isso, só a pinga com limão que compartilhamos ali muitas vezes, pequenas, poucas liberdades femininas conquistadas. Sofria especialmente quando punha aquela maravilha na mesa. Explicava repetidamente a falta de tempo, a distração, os ingredientes longe do ideal. Pedia desculpas enquanto nos fartávamos com o seu afeto saboroso.
O filho, único homem, tinha regalias de príncipe porque ela achava que ele também, por qualquer razão, sofria. Durante os muitos anos em que fomos casados, ela não confiava, com razão, nem em mim nem na cozinheira de casa. E mandava todos os dias, às 18h30 pontualmente, o jantar do filho. Se o prato pedia queijo ralado, quase sempre pedia, vinha o queijo à parte. Italiano no Brasil não come sem pão. Então chegava o pão junto. No começo, enfezei. Depois, eu e a empregada ficamos muito agradecidas por não termos que nos preocupar com os enjoamentos diários daquele filho mal ou bem acostumado. Mas a gente passava vontade. Sobretudo as crianças, proibidas de tocar naquela comida saborosa. Causei alvoroço entre a mulherada emancipada dos encontros profissionais que frequentei mundo afora quando contava essa prática em casa.
Entre as inúmeras demonstrações de carinho comigo e com as minhas filhas, que ela acolhia como só uma nona sabe acolher, havia a de nos esperar aos domingos, avental e batom, para a melhor e mais farta refeição das nossas vidas. Saíamos dali nos sentindo muito amadas. Mesmo eu, que era só a mulher do filho dela. Uma vez, eu trouxe café da fazenda:
-Foi meu filho?
-Não, eu sei que senhora gosta, então…
-Meu filho tem mania, já falei que não precisa.
-Ele nem foi conosco! É presente meu para a senhora.
-Ai, esse meu filho!