Diz que que tem 82, mas não acredito. Não é o cabelo preso num rabo de cavalo, nem a roupa colorida e justa, nem o tenis moderno, nem as poucas rugas. A jovialidade do taxista Antonio está na firmeza da voz, no olhar vivo e na energia. Me pegou em frente ao Municipal, na saída do show da Gal, `as 10h30 da noite e quando paramos no Baixo Gávea para dar carona para minha filha, a conversa já corria solta e ele achou de mostrar que dança bem o forró. Aumentou o volume do som, desceu do carro e dançou na calçada rabiscando passos miudinhos com a ponta dos pés, as mãos segurando com delicadeza o corpo invisível da mulher, umas quebradinhas com a cabeça que só profissional conhece. Conta que a neta de quatro anos aponta o dedinho e acusa: “Você trai a minha avó! ” Ele não se defende: “E por que você diz isso?” Ela devolve como ele gosta: “Você usa rabo de cavalo, é bonito e gosta de dançar!” Explicou que a personalidade sociável e cuidadosa com a aparência é típica do libriano: “Não vê como o meu carro é arrumado e perfumado?” Seguiu discorrendo sobre o zodíaco até a porta de casa, onde estacionou ainda com o som alto, e contou o dinheiro numa matemática ritmada fazendo troco e batucando ao mesmo tempo.
A sensação de que os cariocas são encantadores, especialmente aqueles que tem que se virar para faturar algum e ainda honrar o espírito vida boa, já estava comigo desde cedo quando cruzei com um varredor de rua que curvou-se com a vassoura na mão e fez um meneio, abrindo um sorriso e os braços como um mestre-sala para me dar passagem. Me parece que o charme suburbano carioca foi desenvolvido como uma forma de manutenção da espécie, para compensar a incompetência ou a preguiça. Ainda de manhã, na praia, o rapaz do quiosque fez uma confusão danada com as caipirinhas e nos serviu literalmente o que lhe veio à cabeça, longe do que havíamos pedido. Para justificar o erro, falou e gesticulou sacudindo o facão no ar , explicando como é grande o movimento ali e como ele tem que calcular o número de cocos para não perder muito nem ficar devendo para gente que vem de longe só para tomar os seus cocos e como o clima anda instável prejudicando os negócios e quando nos demos conta, não havia mais caipirinha para reclamar.
Se Pero Vaz de Caminha aportasse hoje no Rio, o email para o rei sobre o achamento da nova terra, além de descrever os habitantes como “pardos, nus, sem coisa alguma que cubra as suas vergonhas”, certamente mencionaria o falatório excessivo que permeia as relações cariocas. Deve ser estratégia do manual da malandragem. Como os movimentos feitos pelos mágicos com as mãos para distrair os olhos do espectador, o carioca fala compulsivamente para tirar o foco do que, de fato, interessa, o percurso do carro, o preço do produto, a peça que você escolheu e que ele não tem mais. Ele desconversa, canta, conta história, é sorridente, charmoso, sedutor e ama esse jogo de desorientação permanente. Não tenho queixas, já comprei o que não precisava, comi o que não gostava, perdi o onibus ouvindo explicação sobre as vantagens que o prefeito leva com as mudanças no transporte público. Invariavelmente termino o dia achando que mais vale a diversão do que um serviço impecável. Mas isso sou eu, uma mulher perdulária de tempo e dinheiro. Imagina um americano classe média do midwest. Imagina na Copa.