Quando me lembro da triste história da iraniana Sakineh Ashtiani ― inicialmente condenada a receber 99 chibatadas pelo crime de adultério (pena que lhe foi efetivamente aplicada), e, mais tarde, à morte por apedrejamento, por trair o marido e tramar o seu assassinato ― a primeira coisa que me vem à cabeça é o absurdo desta punição medieval. Claro que carro blindado, insufilm, carteira falsa também são recursos medievais que adotamos na nossa rotina com extrema naturalidade. Mas é estranho pensar em marmanjos escolhendo pedras no chão e atirando com raiva contra uma mulher imobilizada. Um desgaste desnecessário em tempos de iPad, de cirurgia a laser de miopia, de massa pronta para bolo, débito automático, GPS e tantas outras facilidades do nosso cotidiano.
Me lembrei de um trecho do filme “A vida de Brian”, do Monty Python. A cena se passa na Judéia, ano 33 d.C. As mulheres, proibidas de participar dos apedrejamentos, muito comuns na época, compram barbas postiças e se disfarçam toscamente de homens para poder ir. Além das barbas, vendidas em bancas nas ruas como as dos nossos camelôs, há o comercio de pedras em diversos tamanhos e formatos, adquiridas a caminho da execução. No filme, o condenado é um homem acusado de blasfêmia porque profanou o nome de Jeová, e a massa de carrascos é formada basicamente de mulheres barbadas, excitadíssimas com a oportunidade de externar livremente a sua agressividade.
Não acho justo matar uma mulher que traiu o marido. Nem mesmo se ela tramou o seu assassinato. Vai saber. Pobre de quem tem que julgar a vida dos outros. No entanto, a meu ver, muitas mulheres poderiam ser apedrejadas para largar mão de besteira. Essas que carregam bichos de pelúcia quando vão viajar merecem uma pedra na cabeça. As que fazem voz de “cliancinha” para o namorado também. E as que espremem cravos dos maridos na praia e ainda elogiam o tamanho do bicho colado às suas longas unhas. Tenho vontade de apedrejar uma mulher que viaja com os pés descalços, expondo unhas pintadas e calos à vontade, no painel do carro. As que vão pegar as crianças na escola às 5h da tarde com roupa de ginástica e motorista, eu apedrejaria de inveja. As que estão congelando com microvestidos na fila da balada poderiam ser apedrejadas já antes de sair de casa. Mulher histérica que chora em show precisa tomar pedrada. As que dirigem feito homem, no mau sentido, competindo por cada milímetro de rua, xingando e mostrando o dedo do meio. Mulher que faz biquinho pra foto, especialmente se já tem mais de 30. E tantas outras.
Pensando bem, não há pedras suficientes.