Acabo de encontrar entre os meus guardados, o recibo da taróloga Rosa Castro, da empresa Abracadabra, localizada no Bronx, em Nova York. Recomendadíssima por uma amiga californiana cuja vida foi, até o fim, pautada pelos sugestionamentos dessa profissional de sensibilidade aguçada, Rosa foi responsável por organizar uma “psychic party” ( é o que diz o recibo) de aniversário para mim quando morava lá. Além dos seus serviços no tarô, tivemos outras mesas com leitura da borra do café, de búzios, da aura, das linhas da mão. Profissionais do sindicato da Rosa, cartomantes e videntes certificadas por ela. A idéia da festa era uma noite com as amigas de fé (quatorze, de acordo com o recibo), docinhos, bolo e champanhe. As mesas foram decoradas com lindas toalhas brancas, velas, cristais e outras esoterices e ainda montaram uma barraca fechada para dar privacidade a um do atendimentos, já não me lembro qual. O apartamento era grande, mas a sala não foi suficiente e as sensitivas, mulheres que reuniam todos os ícones da feminilidade através dos tempos, cabelos longos, unhas longas, cílios longos, saias longas, anéis, pulseiras e panos na cabeça, espalharam-se pelos quartos também. As meninas foram dormir na casa de amigos e a beliche delas adaptada para acomodar os acessórios paranormais das bruxas. O marido viajando. A minha sorte estava decidida antes da festa. Por pena ou educação, ninguém passou nem perto, previram um futuro cor de rosa para a aniversariante, mas pouco tempo depois, meu casamento acabou. E isso não está no recibo. Comemos e bebemos ouvindo descrições minuciosas do que seriam os nossos pares perfeitos, homens apaixonados, dedicados, bem sucedidos, masculinos na medida certa. Minha amiga californiana tinha câncer e, por recomendação da Rosa taróloga, foi buscar no México um chá com propriedades curativas que levava a gente às profundezas da terra de onde só se voltava com barro nas mãos. Um mergulho dentro do mais íntimo de nós. Fui e voltei com o coração pendurado do lado de fora onde está até hoje. À certa altura, uma música espiritualizada, entre Clara Nunes e David Bowie, obrigou-nos a oferecer nossos corpos aos deuses e dançamos muito e de uma forma quase anti-social. Ainda me pergunto se o que veio a seguir trazia algum recado do além. Acordei no chão da barraca, abraçada à bola de cristal, vestida de Mother of all Saints, a janela da sala aberta num frio terrível, ainda se fumava naquela época, e os quatro canarinhos, Didi, Vavá, Zico e Djalma Santos, mortos, congelados na gaiola.