Pouco antes da tia morrer aos 103 anos, graças a uma providencial mudança nos medicamentos, a cabeça voltou. Reconhecia todo mundo, estava atualizada sobre as histórias pessoais de cada um, sabia o preço da saca de café e do latão de leite, acompanhava atentamente a política e a economia do país, tinha e emitia opinião sobre tudo. Foi uma virada num jogo quase perdido. Por um período, ela falou absurdos, trocou nomes, chorou e riu na hora errada. Estávamos tristes com a perspectiva de não tê-la conosco até o final. Cutucando daqui e de lá, o médico propôs um movimento diferente e a resgatou do mundo sem memória. Anunciada a conversão, interou-se dos fatos, mortes, nascimentos, separações, falências na família e voltamos a conviver com ela como se aqueles anos tivessem sido só um intervalo ruim numa história boa. A tia era solteira e foi na sua casa, a que herdou dos nossos bisavós, em Guaxupé, que a maior parte dos encontros familiares se deram. Todos os domingos, na longa mesa da copa, pelo menos cinco gerações de mulheres, em diferentes conversas cruzadas, conversavam. Fomos educadas com rigor a não perguntar o óbvio e prestávamos muita atenção para não perder nada. Esparramados pela sala e no alpendre, os homens se colocavam em duplas ou trios que é como dão conta de acompanhar um assunto. Num canto, estavam sempre um tio e o filho que moravam juntos na fazenda e, no entanto, passavam a tarde ali, entretidos, conversando um com o outro. De vez em quando, aparecia um primo com distúrbios mentais vestido de farmacêutico ou frentista do posto, a profissão que estivesse abraçando no momento, todo mundo na cidade colaborava, entrava, dava um recado ou entregava alguma coisa e saía. Muitos anos mais tarde, minha filha mais nova soube que a tia morreu solteira e perguntou: mas não virgem, né? Não se conformava de que ela não tivesse nem namorado. Que, se tivesse namorado, obrigatoriamente teria casado. Não entendia como era possível que alguém passasse a vida sem sequer beijar na boca. Eu mesma nunca tinha pensado no assunto, entretida que sempre estive com meus próprios beijos e casamentos, e só então observei que, sim, naquele tempo, não casar significava não transar. Especulando sem fonte segura que esse não era assunto da conta de ninguém, concluímos que a tia, na sua sábia solteirice, ouvindo as queixas e relatos dramáticos atravessados na mesa de domingo, constatava que casamento e prazer nem sempre andam juntos. À noite, tercinho nas mãos, ainda comiserando, certamente agradecia a Deus a sua sorte. Antes virgem do que mal acompanhada.
Você, Cristiana Beltrão, Laura Vargas e outras 123 pessoas
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