Era culto, educado, intelectual e tinha um sobrenome que me transportava para o leste europeu. Eu adorava fazer esse comentário. Fotógrafo. Conhecia o que era relevante no mundo. O resto, Bahia e afins, visitou pela literatura. Emocionava-se às lágrimas durante o concerto, no final do poema, diante da imagem pendurada no museu. Eu fingindo sensibilidade igual. Fazia análise três vezes por semana. Neurótico e atormentado como eu sonhava ser. Lindinho e perfumado. Tomava banho de touca quando não queria molhar o cabelo. Podia tudo. Tinha letra feia e escrevia muito bem. Articulado. Participava de intrincadas discussões sobre cinema e política quando ainda era de esquerda. A barba perfumada do charuto que ele fumava exalando inteligência.
Eu tinha a tendência de idealizar as pessoas, sobretudo os homens, na época, mais poderosos, destacados nas suas áreas, um tom acima das mulheres. Com irracional atração machista, entregava a eles o coração e o meu desejo. A esse, aparentemente mais frágil, mas igualmente superior, entreguei também a auto estima. Sabia que para me aproximar daquela imagem encantadoramente imperfeita, os defeitos assumidos sem medo, eu escondendo os meus, teria que matar, não no sentido figurado, meus pais, meus professores, minha terapeuta e talvez a mim mesma para nascer de novo. Ele era o avesso do avesso do avesso do avesso e eu não conhecia poesia concreta nem a musica. Quando de touca no chuveiro, deixava a barba ensaboada à mostra e me confundia com sinais tão contraditórios.
Uma noite, em Campos do Jordão, deitados na grama de mãos dadas, o céu por testemunha, disse que estava apaixonado pelo amigo. Fiquei em dúvida se deveria recolher ou manter a mão. Mantive para não dar bandeira. Tentei parecer sofisticada e natural, fazer observações inteligentes para a situação e não sair rolando aos gritos pela grama como tinha vontade. Ele chorou. Continuamos a olhar para o alto, perguntei se me queria perto para ajudá-lo naquele momento difícil que eu mesma não compreendia e quando ele se levantou sem responder, continuei ali imobilizada pelo susto até o corpo doer. Passou para quatro sessões de terapia por semana. Com inveja da complexidade do que ele vivia, decidi que poderia ser uma opção para mim também. Me emprestaria a profundidade e o mistério que eu não possuía. Com ares lascivos, aproximei-me de meninas bonitas, sensuais, delicadas. O cabelo, os olhos, o perfume, a personalidade, sobretudo a atenção que algumas me dispensavam num flerte imaginário. Toquei, cheirei e nada. Nenhuma sensação próxima das que eu conhecia com os homens. Eu era uma mulher comum, óbvia, cem por cento heterossexualmente resolvida. Não seria por ali a minha ascensão às profundezas da alma.
Numa conversa, já sem sermos um casal e sendo porque gente sofisticada continua sendo, deixei-o saber que eu também tinha passado por uma crise de gênero. Soou tão artificial e fora de contexto que ele fez uma vírgula e seguiu o raciocínio sobre um documentário que estava filmando. Nunca mais o vi. Soube que encaretou, tornou-se conservador, assumiu os negócios da família, mulher, sogra, filhos e tal. De tudo, o que me intriga é se ele manteve a touca no banho.