Formou-se à duras penas no curso noturno de contabilidade, o diploma necessário para uma eventual promoção no emprego. Durante um ano, deixou as crianças com o marido, jantar pronto no fogão e seguiu para o segundo turno do dia. Pouco depois da formatura, aparece o fotógrafo no portão com o álbum do evento. Entra, acomoda-se na mesa de jantar, pede um copo de água “temperada”, abre a maleta e saca uma pasta com folhas plásticas contendo as fotos ampliadas. Dois mil reais. Ela agradece e diz que não quer encomendar o álbum. Ele responde que sem a capa de couro, pode fazer por mil e quinhentos. Ainda é caro. Ele oferece fotos avulsas. Não, obrigada, ela diz, não estou podendo gastar. Três pelo preço de duas, no papel brilhante. Hoje não, meu senhor. Ele, então, expressão distorcida, vai retirando lentamente uma foto de cada vez dos plásticos, rasgando em quatro e fazendo uma pilha diante dela sobre a mesa. A regra é clara, ele explica, saboreando o momento, tenho que inutilizar as fotos que não são vendidas. Antes de se levantar, separa uma cópia do tamanho de uma unha usada para identificação dos clientes e entrega para ela. Fica de recordação para a senhora.