Fui ter com o Paulo Vanzolini no ano de lançamento da National Geographic no Brasil. Estávamos montando um seleto grupo de consultores para as diversas áreas que a revista cobre e o Matthew Shirts, editor da publicação, pensou em convidá-lo para ler em primeira-mão as matérias vindas dos Estados Unidos que envolvessem zoologia. Se encontrasse algum termo mal traduzido, alguma expressão inadequada, ele, assim como faziam os outros consultores, levantaria a bandeira vermelha e aplicaríamos as correções necessárias. Vesti minha melhor roupinha, passei perfume e fui ao Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. O lugar é bonito e solene como cabe a um museu de 1941, mas assusta quem não está acostumado à meia-luz em plena luz do dia e às variadas espécies da nossa fauna largamente retratadas na fachada e nos enormes vitrais do prédio. Entrei no laboratório e Vanzolini, então diretor do museu, que estava concentrado trabalhando, parecia não se lembrar ou não querer se lembrar do nosso compromisso. Levantou os olhos por trás dos óculos e perguntou no tom mais malcriado possível sobre o que eu queria conversar. Quando expliquei minha missão diplomática ali, não teve pena e em nome do descaso com a atividade científica nacional, xingou a National, a imprensa, os norte-americanos, o governo brasileiro, todas as instituições públicas de que se lembrou. Usava expressões fortes como ” É imperioso que façamos” e sacudia os braços no ar. Acostumados com a personalidade forte, a defesa exaltada de suas opiniões e a alma artística do nosso zoólogo, os outros funcionários não interrompiam seus afazeres. De vez em quando, um deles sorria com cumplicidade para mim. Encolhida na cadeira dura, arrependida por ter me oferecido para fazer o convite pessoalmente, fazia contagem regressiva para o momento de agradecer e nunca mais voltar.
Mas aconteceu o inevitável e enquanto ele vociferava, foi crescendo em mim uma admiração ainda maior por aquele senhor que já tinha padecido febres e doenças tropicais nas dezenas de viagens de pesquisa que fez Amazonia adentro. Eu conhecia a sua biografia. A Teoria dos Refúgios nascida da observação dos espaços vazios no meio da mata fechada. Seus prêmios internacionais, a criação da FAPESP. Fui me emocionando com a sua seriedade e dedicação num ambiente científico com tão pouco apoio e recurso, como sempre acontece no Brasil. E mais, enquanto ele esbravejava de jaleco, no meio daqueles vidros e líquidos mal cheirosos, eu o via relaxado na mesa do botequim, ao lado de outros sambistas paulistas, compondo as coisas maravilhosas que estão aí. Acho que a minha expressão apaixonada foi mais forte e ele, que não era homem insensível às questões do coração, foi desacelerando até ficar completamente em silêncio me olhando. Sugeriu, então, que caminhássemos até um bar perto da sua casa, ao lado do museu. Ali, bebericando pinga durante varias horas, revelou-se o homem sedutor, o compositor boêmio, o cientista curioso e destemido que eu tinha ido procurar. Ouvi histórias, verdadeiras ou falsas, sobre as suas viagens por onze mil quilômetros de rios brasileiros, a coleção de repteis, a relação com os povos ribeirinhos e as vantagens de estar casado agora com a melhor cozinheira do mundo. Em tempo: ele não aceitou o convite da National Geographic.