Leio aqui boas histórias e lembranças gostosas de amigos com Moraes Moreira. Vai-se com ele um tanto da nossa alegria, já tão em falta esses dias. Minha historia, no entanto, vem na contramão desses relatos. Há muitos anos, fui assaltada uma noite quando esperava o amigo que me dava carona da faculdade. Numa época ainda ingênua que permitia certas liberdades, pedi a chave e fui me sentar no carro enquanto o amigo terminava alguma coisa na sala de aula. Quando os dois assaltantes chegaram armados, um em cada porta, eu ouvia Moraes Moreira numa fita cassete. Os caras meteram-se um no banco do motorista e o outro no do passageiro e me levaram espremida entre eles, recheio no sanduíche de bandidos. Saímos noite adentro, carro voando, eles nervosos, aos palavrões, sem saber para onde ir. Freavam bruscamente. Aceleravam fazendo barulho. Eu rezando para não encontrarmos nenhum carro de polícia porque seria inevitável identificar a cena e ninguém sairia inteiro dali. Algumas pessoas são sensacionais em situação de limite. Eu sou do tipo que emburrece. Por alguma razão, durante as quase duas horas que rodamos por São Paulo, minha única preocupação foi manter a musica rolando, como se fosse aborrecê-los ainda mais se o Moraes Moreira parasse de cantar. Assim, cada vez que a fita terminava, eu tratava de metê-la correndo no toca-fitas e ouvíamos novamente Pombo Correio e Preta Pretinha e Acabou Chorare. Inevitável que Moraes Moreira virasse a trilha daquele episódio. Mas não guardo rancor nem dele nem dos dois infelizes que fugiram levando minha bolsa e o carro do meu amigo e que foram presos depois. Eram tempos melhores.