Meu primeiro contato com a técnica foi em Nova York, nos anos 90, através de um médico chinês frequentado por jornalistas, escritores, poetas e artistas de um modo geral. Falaram dele num jantar. Eu não poderia ficar de fora. Inventei um pretexto e fui. Apesar do consultório estar localizado num sofisticado endereço no Upper West Side, o preço das sessões era acessível e, diferentemente do meu dentista que odiava essa turma, ele lidava bem com a dificuldade dessa clientela de cumprir horários e respeitar as rigorosas regras da ciência milenar. Cada vez que você ia lá era como se fosse a primeira vez.
Queixei-me da alergia ao pólen que chegou junto com a primavera americana e me deixou, como à tanta gente, com muito mal-estar. Ele inseriu de leve as suas famosas agulhas de ouro, esterilizadas numa caixinha de metal cheia de álcool e ligada à tomada para aquecer. Meu avô, médico, tinha uma igual. O cheiro forte me lembrou o das marmitas que os operários das construções em São Paulo esquentavam em fogareiros rústicos. Tentei comentar isso e outros num artifício para disfarçar o medo e a tensão, mas ele fez um gesto para que eu me calasse e o repetiu em outras ocasiões quando não fiquei em silêncio como manda o ritual. Nossa comunicação foi praticamente gestual, exceto por duas ou três expressões monossilábicas que ele repetia a cada sessão: Fi(r)st time acupunctu(r)e? Falou sem pronunciar o erre. Pain? Relaaaaaax. Ou melhor, Welaaaaaax.
Depois do que me pareceram longas horas de relaxamento, espetada como um boneco de vodu sobre uma maca numa salinha à meia luz, ele me entregou uma receita de medicamentos fitoterápicos escrita em chinês que deveriam ser adquiridos num fornecedor específico no Chinatown. Sem muito espaço para questionamentos, saí dali direto para o metrô com o papelzinho hieroglifado na mão e atravessei Manhattan em direção ao desconhecido. Achei que as pessoas no trem me encaravam de uma forma que não é comum nem recomendável em Nova York, olho no olho. Passei por patos, cobras e lagartos pendurados e entrei na pequenina farmácia alguns degraus abaixo da linha da calçada. Estendi a receita para o primeiro oriental que vi e que não era funcionário, devia ser um morador do bairro que achou a maior graça e ficou olhando para mim e para um outro e rindo. Não era tão engraçado assim e me aborreceu um pouco aquele exagero, mas eu estava em território duplamente estrangeiro, me fiz de boba e sorri de volta. Fiz a compra muda e saí calada. Munida das ervas embaladas em pequeninos envelopes de papel de seda, tomei o metrô e, novamente, tive a estranha sensação de que não me tiravam os olhos durante o percurso. “Essa mania de perseguição ainda vai acabar comigo”, pensei. Só em casa, quando fui tomar banho e me olhei no espelho, entendi porque tanta gente me encarando no trem, tanta risada na farmácia. Algumas raras vezes, soube mais tarde, a agulha da acupuntura pega uma veiazinha e sangra. No meu caso, mais raro ainda, várias veiazinhas sangraram e, mesmo com os procedimentos que ele fez na hora para estancar, finos riscos vermelhos saíram da minha cabeça, atravessaram as têmporas, escorregaram pelo pescoço e secaram sobre a pele tatuando um desenho assustador como o de uma daquelas máscaras de Halloween. Óbvio que eu nunca contei para a turma em Nova York que eu não sou boba nem nada. Como dizia minha mãe, e o que iriam pensar de mim?