Quilombo do Pau Furado, Marajó, PA

Quilombo do Pau Furado, Marajó, PA

O menino quilombola escalou a palmeira rápido como um lagarto. Outro corria na frente e de repente ressurgia lá atrás num alegre truque de ilusionismo. Um terceiro andava de costas, olho no olho comigo. De tempos em tempos esticava o braço para arrancar frutinhas que metia na boca e então distraía-se com aquilo e sumia na mata, as folhas balançando na sua passagem. Eu maravilhada com as crianças bicho e o imaginado, saci, curupira, boto, invejada, querendo ser. O coração aos pulos com a velocidade do que acontecia e que era só o tempo real das coisas, do rio, das nuvens, do sol, de uma caminhada no Marajó. No meu registro ansioso, o presente imediatamente passado. De repente, foi a menina batendo as asinhas e metendo o nariz em cada flor, me, se enfeitando, cabelo, barriga e pés, pétalas coladas no suor, confete. Acharam graça no meu encantamento, riram-se de mim, divertiram-se, eu também mergulhei na gargalhada esparramada e à toa. Um deles, pendurado de cabeça para baixo num galho sobre o rio, observou: Essa aí admira-se de tudo! Falou baixo para ele mesmo querendo que eu ouvisse a provocação. E me definiu.

Susan Sontag dizia que para escrever é importante ser curioso, ir atrás das coisas, “Atenção é vitalidade. Conecta você com os outros.” Sem a consciência intelectual da Sontag, anotei na alma a observação do menino. Sinto esse fio amoroso me conectando ao redor. É mais do que curiosidade. É fome mesmo. Engulo o que me apetece aos bocados, sem mastigar e ainda cru, só sentindo o gosto bom ou ruim daquilo na boca e jiboiando depois com a barriga cheia, alimentada, saciada. Na digestão dá-se o entendimento. Daí, pelos maus modos, talvez a leitura do garoto achando que o natural deveria ser a regra e não o exageramento que me toma. Gosto de explorar meu desconhecimento. Não saber até sentir e, então, saber. Abrir mão do experimentado. Receber o novo com virgindade e surpresa. Aí o prêmio maior, a emoção da descoberta. Eu, de novo, admirando-me de tudo.