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Foto de Luiz Braga

Água para as visitas, 2001. Vila de Santa Maria do Maú, Pará.

 

A mulher entrou com a assadeira bem areada, a sua imagem deformada no reflexo do alumínio batido e marcado pelo uso. A gente esperava a água com muita sede e quando ela chegou com os copos naquela bandeja improvisada parecia que nos servia generosidade pura. Estávamos há horas na estrada da fazenda debaixo do sol quente. Foi idéia do meu primo Nato que parássemos os cavalos e pedíssemos água naquela casa sem porta, de chão vermelho, janelas irregulares. Vassoura cercando o cisco, descansando na parede. A mulher estendeu os copos sem levantar o rosto. Sentados no sofá de courvin diante da televisão de tela azul, tomamos tudo de um gole só, agradecemos e saímos sem olhar para ela. A vergonha era apropriada e recíproca. Depois, tive muito arrependimento de não ter trocado nem uma palavra. De não ter dito que achei a casa dela bonita e muito limpa. E deixado ela explicar que a água era fresca porque vinha da bica. Teria sido tão bom!