O marinheiro Yuri, nascido e criado na Ilhabela, foi nosso guia naquelas águas paradisíacas durante os anos em que o barco ficava lá. Tinha orgulho disfarçado, fazia ar de naturalidade diante do nosso encantamento quando atravessávamos as águas transparentes da Ilha entre corais, cardumes de peixes e tartarugas gigantes. Conhecia as histórias de cada praia e de cada morro e de cada construção erguida irregularmente ali. Nome, cpf e tudo. Dava lições de sustentabilidade e cuidados com o meio ambiente. Ensinava como lidar com as queimaduras de arraias e picadas de borrachudo, o vinagre. Encostava nosso barco nos barcos dos pescadores que vendem lula fresquinha, negociava com vantagem para os colegas, a gente com ar de naturalidade. Me apresentou a caipirinha de folha de mexerica num botequinho à beira-mar onde uns parentes dele faziam o melhor peixe da região. Pés de anfíbio, esparramados e colados no convés, nunca os vi na água, dizia que marinheiro não entra no mar. E achei gostoso imaginar que ele teria brincado a infância toda na praia, mergulhando, catando siri, jogando bola na areia depois da escola, como qualquer garoto de cidade brinca na rua.
Considerando tudo isso, quando perguntei como era seu nome no Facebook e ele respondeu “Yuri Alma Verde”, achei aquilo de uma poesia sem igual. E desandei a elogiar a sensibilidade do nosso lobo do mar. Ele ouviu com expressão de estranhamento e explicou que, apesar de gostar demais do litoral brasileiro, em especial da região onde vive, a tal alma verde, longe de uma homenagem à natureza, pertence ao palmeirense fanático que ele é.