Dedo apontado para uma impressionante escultura do Cristo com a coroa de espinhos fincada na testa, nosso guia em Ouro Preto lembrou-se do que descreveu como “o momento mais emocionante da sua vida”, que foi quando viveu Jesus Cristo na procissão da Via Sacra. Mulato de olhos escuros, dificilmente conquistaria o papel, mas como a enorme cruz de madeira bruta era pesada demais, ficou à frente dos clarinhos magrelas que se candidataram a protagonistas da mais solene representação do calendário religioso da cidade. O desempenho pediu dele mais sacrifício do que imaginava. Nem precisou fingir a dor que deveras sentia. O ombro sangrava, o manto sagrado empapado de suor. E tinha a peruca loura, longa e lisa, feita de cabelo verdadeiro, escapando da cabeça, provavelmente menor do que a do seu antecessor. Achou que não chegaria ao final da caminhada pelas ladeiras de paralelepípedos da cidade. A família toda, incluindo o irmão obeso “que mamou na minha mãe até os 7 anos”, rezou e acompanhou o cortejo compenetrada.
Quando chegou ao Calvário, no alto da colina, olhou para a multidão de fiéis e se sentiu próximo de Deus e de Hollywood: “Durante um tempo, fiquei em dúvida entre ser padre e ator.” Perguntamos pelas fotos, queríamos vê-lo no figurino bíblico. “Não tinha esse negócio de fotografia, não. A gente era pobre por demais. Guardei a imagem que vi no espelho do banheiro antes de sair com a cruz.”