Sempre me atraíram as personalidades controvertidas e polêmicas de grandes homens. Os chamados gênios mal compreendidos. Tenho um desejo louco de acolhê-los, dar a eles a estabilidade e o apoio que precisam para exercerem na plenitude sua vocação, seu talento, sua missão divina. Para esses não há alternativa, não há outra escolha senão viverem aquilo que nasceram para ser . Me emociona o sofrimento exposto desses diabos atormentados. Porque a vida social cotidiana, da forma como está estabelecida, não tem lugar para os excepcionais. Não pode haver política de inclusão para os gênios indomáveis. Os que não encontram conforto em casa, tem que pagar aluguel em algum coração mais carente que o deles. Como jornalista e, com total isenção técnica, sempre preferi Maradona a Pelé, Picasso a Monet, Glauber Rocha a Walter Salles, Miles Davis a Herbie Hancock, os boxeadores aos tenistas. As manifestações de desconforto com as regras sociais, a inadaptação `as normas de comportamento e, sobretudo, o mal-estar exposto, incontido, vomitado, me hipnotizam. Como se de seus peitos abertos escapassem todos os fantasmas escondidos no meu. Sinto inveja da sua incapacidade de dominar os demônios que eu e outros tantos tão bem controlamos. Da entrega absoluta quando precisam se expressar e sentem que o palco, a tela, o instrumento, o ringue são insuficientes. Tenho inveja da exaustão e da dor após a explosão genial. Do cansaço de viver intensamente.